terça-feira, 12 de julho de 2011

Horas


                                                                                     


          
Sã amiga
a brisa traz partículas
umidificadas em saudades
Sonolento ouço o ruído
de cada gota
é sono? é vento?
é delirio em mar
horas em movimentos
E a brisa vai
Sem brisa tarda                                         
             
                                            fmaynart
                                                        

domingo, 10 de julho de 2011

Feche os olhos

Ei, quando eu não estiver mais aqui
Abra a porta e veja o tamanho do céu                                             
                                                                                Serra da Bocaina
E no horizonte um pássaro
fecha os olhos
ao anoitecer na árvore seca
e trás
a lua solta
que
 (re)inventa em mim.
.......
                                                                

                                                                                       fmaynart

terça-feira, 5 de julho de 2011

os pregos


Havia um problema na Pizzaria Galileo naquela tarde. Um cabeludo e andrajoso cliente tinha comido, bebido e tomado café, e agora recusava-se a pagar.

- O senhor não pode sair sem pagar, meu senhor...- o garçon começava a ficar irritado.

- Sinto muito irmão, não faço parte do mundo do capitalismo, vivo da caridade alheia enquanto propago a palavra do Pai.

Capitalista ou não, o garçon resolveu chamar o patrão, 'seu' Domenico, para desenrolar a pendenga. Se o cara fosse mesmo Filho do Homem, não era ele que ia se complicar por isso.

'Seu' Domenico não ficou com meias palavras:
- Escuta aqui, filhote de INRI Cristo, na frente do restaurante há uma praça com fonte e chafariz, se você fizer o Moonwalk do Michael Jackson em cima das águas tá tudo certo, caso contrário, chamo a polícia.

O homem dirigiu-se à fontana e começou a andar na superfície do tanquinho. Quer dizer, ele até que começava bem, dava dois passos sobre as águas, para logo afundar.

- E então?...

- Sabe o que é, meu bom homem, depois que me furaram os pés na Cruz, este milagre não sai mais direito...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Em milhas





O meu
que seguro em mim
Bebeu                                                                                               
o chá de jasmim
Cresceu
um segredo sim
Morreu
o amor por mim
Um teu
que brotou sem fim
Correu
em milhas daqui
Do céu.  Do céu.
Em
milhas daqui.
fmaynart

domingo, 3 de julho de 2011

Kashf: 1. caminho 2. desvendamento


não diferem o amor e o desejo ardente
o amor é um oceano infinito
onde
os céus não passam de um micro
floco de espuma

o desejo aflui para o rio
caudaloso
do amor primordial
são as vagas do amor que giram
a roda dos dias
e das noites

o amor veio a mim
e aniquilou
meu eu encheu
todas as partes como um boneco
de pele

o amor não me quis deixar
mais
perdi todos os véus
minha realidade única
atingi
lo

de mim já não resta senão
um nome
tudo mais somente espelhos
capitoso
vinho que abundante escorre
da sua face

segunda-feira, 27 de junho de 2011

sem título

há no mundo um mundo
medra imerso em medo
agora
que voltei da volta ao mundo
minto
revolto ensombrado durmo
bruma adentro
de meias

entretanto movimento a mente estaca
entre
tempo entrante de mor
sorte ânsia & espanto
enfim um mar
a que sempre (diminuto)
volto

porque não vento nem chovo
de fato
nunca imerso impenso
desperto
o amor que o tempo des
dobra

dou de ombros consulto
oráculos
de fora a fora finjo
fujo da obra inverso
semi névoo sem tamanho nem
tento

mas sigo ainda sendo
cego
ovas mortas escutando
junto
ao muro olhos de pano
apostos atento a
mirarte

pois que um mundo tão
sem vôo
vou em frente enfrento
ar
onde ondas ondeiam e o mar sempre
volta

sábado, 11 de junho de 2011

por que se mata o poeta?

Árdua entre as mais tarefas

que impõe a vida continuar

vivo não é fácil e requer

experiência

ninguém pediu para nascer

supostamente

por que então o poeta pede

para sair?

desce do trem e da vida antes

do fim da festa do pôr

do sol do inverno e da

colheita

o estouvado gesto é claro

erro crasso e necessário

a mim a vocês ao camponês

e ao operário

o poeta surfa a onda na velocidade

da luz

um vacilo e ele perde todos os espelhos

torna-se irremediável solitariamente

contrário

tragado pelo caldo primitivo nas entranhas

do Grande Buraco

em 1925 Siérguei Iessiênin corta os pulsos

escreve versos com sangue e

se enforca

grita Maiakovski contra os "versos velhos no velório" do jovem

porque somos chamados a sustentar o corpo imenso

do morto

já que sem poetas estamos um pouco menos

despertos

menos atentos à barulheira que faz a poesia

em nossos sentidos

os suicidas sempre deixam uma mensagem

em código

escrita numa língua antiga e indecifrável

a qual esquecemos

mas que afinal lembramos uma última vez

cedo ou tarde.