sábado, 4 de janeiro de 2014

Leviathan melanophyllus (#4)



 ― Então, Ernaldo, quer dizer que você virou babá de gente grande? Hahaha, gente grande, hehehe, desculpem, às vezes me dá dessas... hahaha!
Nenhum deles riu. Ernaldo coçou a nuca ao tirar o capacete, tentou remediar o mal estar. Não que adiantasse grande coisa quando se tratava de Walter Blanco, o Dr. W. Completamente sem pêlos, exceção feita ao cavanhaque, envergando um jaleco imundo, sandálias idem de couro trançado, fedendo a amoníaco, aquele era o químico responsável pelo laboratório top do pedaço. “Tipo do cara que as pessoas só suportam porque precisam”, Dárius lembrou do perfil sucinto traçado pelo chefe a caminho do laboratório.
― Zoa não, doutor, o rapaz aí tem couro de jacaré, soldado dos bons...
― Soldado, é? Hum, sempre esqueço que vocês lá da Colméia gostam de brincar de casinha: governador, soldados, agricultores, profetas, administradores, uma beleza de comunidade... regrinhas, leis, prisão, expulsões, ostracismo e tutti quanti do receituário habitual de República-Utopia.
― Pois é, a gente dá um duro pra se organizar. Devia fazer o mesmo, deixamos nossas motoristas lá embaixo soterradas por um exército de baratas. Gastar mais em limpeza seria bom...
― Ora, ora, o que são as peludinhas voadoras perto de homens tão bem treinados? Se conheço bem as moças que te acompanham, não vão dar piti por causa de uns poucos artrópodes.
― Uns poucos?! Esse cara não sai desta toca há quantos anos? ― acachapado pela profusão de tubos, contêiners, bombas, centrífugas, freezers, frascos, barris, ampolas, retornas e fornos, Dárius principiava a se dar conta da náusea, efeito das fumigações nauseantes do que parecia ser um alambique de xixi do capeta.
Além dos equipamentos, pouco ali lembrava uma refinaria: quem contemplasse a balbúrdia das bancadas decrépitas daquele loft, os gritos e tropeções da malta frenética de assistentes maltrapilhos, dificilmente suspeitaria que um trabalho minimamente coordenado estivesse em curso naquele pardieiro. O famoso Galpão nem mesmo era um galpão, mas um edifício de quatro pisos. Apenas os dois andares superiores eram utilizados, no térreo e no mezzanino vigia um comodato simbiótico com as baratas e os ratos.
― Brejeiro, né, soldado? Dizer que isto já foi uma fábrica de anjinhos...
― Hã?! Que porra...?
― Uma clínica de abortos. Você não sofre demasiado da inteligência, hem rapaz? Demora pra pegar... tá no ofício certo, não força o miolo à toa. Homens de ação só pensam quando agem, parados, não valem nada.
― E você, professor, pensa muito antes de ser escroto com alguém?
― Ahá, bravo Ernaldo, finalmente você me trouxe alguém capaz de falar ― Dr. W tirou os óculos de armação quadrada e fixou Dárius com interesse ― Saiba que aqui se produzem vacinas, remédios, fertilizantes, explosivos, e também a jóia da coroa, a mercadoria que vocês necessitam como o ar que respiram: alucinógenos pra suportar o autoengano. Escroto, você disse? Esteja certo disto, nada é mais escroto do que a vida de um homem inteligente nos períodos trevosos da barbárie.
― Blanco, por favor, confira a nossa a mercadoria e dê o seu ok pra podermos fechar o escambo. Temos uma descida complicada à nossa espera com as mochilas cheias ― Ernaldo apresentava papéis e faturas na esperança de desviar o assunto.
― Cê tem bronca de soldados, né doutor? Devia mesmo era contratar alguns seguranças pr’esta sua birosca, tá criando mais bicho que esgoto.
― Inutilidade cara, rapaz. Isto é negócio...
― Belo negócio o seu, sintetizar drogas!
― Bah, um dos comércios mais antigos da humanidade. Além do quê, não preciso de bedel: os bicharocos têm medo do cheiro deste lugar.
― Hahaha, medo?, pergunta pras ratazana lá de baixo, fio...
― Tá rindo de quê, meganha? Meu business é sério, não engano ninguém, não: quem tá comigo, tá pela grana. Cansou? Cai fora, vai curtir a vida com dinheiro no bolso. Ih, Naldo, acho que dei com a língua nos dentes de novo...
― Nunca falta esse seu número, certo Walter? Se prepare Dárius, agora vem a parte em que ele fala sobre todos os defeitos da Colônia.
― Pois é meninão, pela tua cara, parece que ninguém te contou sobre esse “detalhe” da vida adulta: o dinheiro ainda existe, e ainda é a mola que dá corda na máquina do mundo. Aposto que também se “esqueceram” de falar sobre a Ilha do Prazer, do Círculo, do McSweeney’s e de todo o resto, não foi? A vida é muito mais do que trabalhar pela grandeza dos ideais da Colméia... você é jovem, tá esperando o quê? Que bonita coisa sustentar os privilégios duma casta de representantes do vazio! Olha ali ― Dr. W apontou para o embrulho que dois ajudantes acabavam de depositar no chão. ― Acha mesmo que dá pra trocar esse tanto de meta da melhor qualidade pela comidinha da sua granja? Nosso escambo principal é money, bufunfa, moeda sonante, esse o peso artificial que acerta todas as balanças... se da mochila do teu capitão não sair o ouro que me devem, nego, necas de pilulinhas pra embalar os festivais do socialismo hippie da tua tribo. Colônia Cecília, ainda tiveram o desplante de homenagear os libertários do passado... O tempora o mores!
― Caramba, Blanco, só porque você tem esse câncer incurável não tem o direito de... Dárius, a gente que tá nas ruas, vive uma outra realidade, você sabe que algumas informações são...
― Subtraídas. É isso que cê ia dizer? Não, claro que não, você já até tá falando como eles, Ernaldo... um dia desses você se descobre um belo de um burocrata, no seu posto importante de back office, mentindo pra alienados que não querem ouvir a verdade. Ah, sim, vocês são muito estritos lá na Colm... na Colônia, vocês põem criminosos na rua sem armas. O que isso significa soldado? Seja sincero.
― O Ernaldo falou tudo, se organizar não é nenhum pecado em tempos tão perigosos como estes, há várias comunidades como a nossa... Você não é o chefe desta bagaça? Vocês não têm leis aqui?
― Temos uma lei só: o mercado. Se pagam melhor fora, o sujeito vaza. Sem ramelagem, sem choro, nem ranger de dentes. Mando sobre aquilo que entendo, química; sobre o resto, quem pode legislar?, cada um sabe o que é melhor ou pior pra sua vida. O advento do Leviathan foi uma catástrofe natural com o auxílio luxuoso da incúria humana, não um castigo divino.
― Você sabe por que ficamos assim, pequenos?...
― Mocinho, na ciência, chegamos no máximo aos “comos”, os “porquês” ficam na área restrita ocupada pelos seus marqueteiros e místicos. Hahaha! Tudo que sei é que a epidemia começou a se espalhar a partir de Three Miles Island, Fukushima e Chernobyl... o caso mais bem documentado é o de Chernobyl, o maior evento nuclear da história, equivalente à explosão de quatrocentas bombas de Hiroshima: décadas depois de ter sido selado com toneladas de chumbo e concreto, numa inspeção de rotina com câmera-robô, descobriu-se uma mancha escura crescendo nas paredes do reator quatro. Nada menos que trinta e sete espécies de fungos mutantes sobreviviam num lugar onde não poderia haver vida pelos próximos novecentos anos! De alguma maneira, o Clodosporium sphaerospermum e o Penicillium hirsutus aprenderam a usar a radiação atômica e o pigmento melanina como as plantas usam a clorofila e a radiação solar pra produzir energia. Eles descobriram a radiossíntese. Em humanos, estes fungos provocaram alterações no DNA, reduzindo a humanidade a criaturinhas albinas com quinze centímetros de altura. E assim chegamos a esta situação: indefesos, isolados em bunkers, dirigindo carrinhos de brinquedo, usando armas improvisadas contra o novo predador do topo da cadeia alimentar: o gato doméstico.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#3)


― Cê tá bem aí atrás, Dárius?
― Só alegria. Os totós até já tão tirando no palitinho quem vai ser o primeiro a deschavar nóis!
― Cara, tô dando tudo, tô enfiando o pé na tábua, mas esta bagaça tá cheia demais pra correr!
― Suavão, Pernilla, meu negócio não é dar volta de charrete na pracinha, tá bom pra espantar o sono.
Pouco depois de uma lombada, a passagem estava obstruída pelo duplo desabamento de um poste de iluminação arrastado ao chão na queda do alfeneiro da calçada oposta. Do lado da raiz a passagem era larga o suficiente para um veículo e meio, passaram, a confusão no afunilamento da massa de perseguidores valeu-lhes preciosos metros de vantagem. Os veículos emparelharam novamente, sempre fugindo na direção do morro.
― Como é que tá aí, Nilla?
― Tranks, chefia, o chato é que, na subida, esta banheira anda bem menos...
― E você, Dárius, algum machucado?
― De boa. Só que gastei as biribinhas todas nos pulguentos.
― Tamo com sorte, olhem lá adiante... ― Rebeca chamou a atenção para o alto da estrada, onde a avenida ladeava uma pequena praça e se dividia numa subida abrupta a sudoeste, e um braço de asfalto sinuoso rumo ao norte.
A carcaça de animal grande, capivara talvez, era disputada por uma nuvem turbulenta de urubus ao lado do que tinha sido uma banca de revistas. A matilha partiu pra cima sem hesitar, apenas uns poucos desgarrados continuaram no encalço deles.
― Segura aí minha gente, vou peidar na fuça da cahorrada...!
A bomba, lançamento preciso de Naldo, fez os últimos rafeiros desistirem. Brigar com os bicuços de repente parecia bem mais divertido; pra quem chafurda em porcaria o dia todo atrás de restos, a inhaca da carniça satisfaz mais o paladar do que o gás lacrimogênio.
Resolveram se abrigar sob o ponto de ônibus tomado pelo mato. A pequena praça adjacente era uma fonte verdejante regurgitando ondas de proliferação vegetal, as grossas raízes das figueiras-bravas cresciam desenhando um reticulado art nouveau entre os blocos remanescentes do calçamento. O restante da subida era bastante íngreme e em terreno relativamente aberto, então, viria a travessia da grande avenida, onde estariam completamente à mercê do ataque das aves de rapina.
― Pelo menos os gatões ficam longe com esta algazarra de uivos ― Rebeca checava os danos e baixas do arsenal.
― O asfalto é ruim na escalada, mas dá passagem... o que tem são os pombos que tomaram as casas da bira, digo, da beira da...
― Hmm, seguinte, estamos no limite do que podíamos ter gasto de munição a esta altura... ainda assim, nada é pior do que os bichanos.
― Ei, abaixa a cabeça Nilla!
Emergindo repentinamente da camuflagem, um louva deus descomunal agarrou a motorista pelas costas pinçando as garras anteriores no colete de proteção. Confundem o colete de kevlar com a carapaça dos escaravelhos. Pernilla dobrou o tronco num gesto ágil, sentindo zunir no ar a passagem da lança de Dárius que decepou de um só golpe a cabeçorra do inseto.
― Caracas, nem vi de onde veio esse filho da puta!
― Cê tá legal, amor? Valeu aí, Dá...
― Viram o tamanho do bruto? Então Reba, filma direito essa tua mina, tem macho na pegação dentro das moitas...
― Boa foiçada, soldado, gostei da prontidão. Pilotas, sem palavras, cês tão dirigindo muito. Tem barra de cereais aí na sacola, vamos dar uma forrada antes de seguir em frente.
Como previsto, sofreram um ataque maciço das pombas antes de atingir o topo. Três sacas de grãos de prejuízo. Antes de se atreverem a cruzar as quatro pistas que os separavam da encosta sul, por onde desceriam até o Galpão, avistaram os vultos dos carcarás nos terraços dos prédios margeando a grande avenida. Alguns gaviões cruzavam o céu a média altitude, urubus executavam suas manobras elegantes mais acima.
― Esta é a parte mais escrota do rolê...
― Não tem jeito: é ele, ou nós.
Dárius descobriu o encerado da caçamba e puxou o bicho pra fora. Ernaldo desamarrou-o e deu-lhe uma ferroada no traseiro felpudo, o filhote de coelho saiu correndo desarvorado para o meio da rua. As aves se lançaram na captura da isca viva enquanto eles atravessavam a avenida no pau. Ouviam os grasnados dos predadores na disputa furibunda descendo pelo outro lado da montanha.
― Mano, tu deu um pula-pirata no coelhinho que quase arrancou o rabo!
― Depois choro por ele, agora nós vamos ficar é bem do ligados: daqui em diante é território da gataria.
― Que porra é aquela gente? O mundo tá de ponta cabeça, ó lá!
― Fata Morgana.
― Nunca viu, Rebeca?
Bordeavam um talude do terreno quando o belvedere lhes descortinou um vasto retângulo da zona sudoeste. Efeito do calor do meio dia, a diferença de temperatura entre as massas de ar da planície e do topo criava o fenômeno óptico. A cidade como que boiava num céu impossível.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#2)


― Fica sussa, chefe, do jeito que as ruas tão, o menor dos problemas nesse bonde vou ser eu, garanto.
Entretanto, a chuva parou.
Num ponto o mercenário acertava, desde o surgimento do Leviathan m. muito havia mudado lá fora, para além dos muros lacrados dos viveiros humanos ― tínhamos perdido o território.
A cidadela caiu em toda parte, sob o impacto da catástrofe biológica, o conjunto da humanidade experimentava um retorno dramático às condições reinantes na origem da espécie: isolamento, população reduzida, escassa dominância sobre os outros animais.
Alguns milhões de pessoas foram devoradas pelos seus próprios pets antes que a nova situação religasse nas massas o pavor da natureza selvagem. A expansão sem freios da Natura naturans.
Abrem-se os portões da Colônia Cecília.
Os veículos saem rapidamente para o meio do asfalto, executam uma curva à direita em alta velocidade, acelerando no aclive suave da rua curta. Pilotando o jipe, Rebeca dá cobertura andando na frente do caminhão carregado de frutas e grãos.
― Uhu! Barra limpa, mano, a hora é essa!
― É bom começar sem vento contra, mas a viagem á longa. Difícil não ter problemas com os penosos levando tanta comida...
― Hmm, certo... até galinha virou problema. Escuta, este corre é food for drugs, não é? ― Beca não se gastava em voltas pra chegar onde queria.
― Food for aid. Estamos com baixos estoques de medicação contínua, sou contra arriscar soldados nisso. Nem mesmo acho bonito gastar estoque com bagulho, por mim, só mandaria drones atrás dessas pragas.
― Ah, você sabe que aqui perto só tem mercadoria de baixa qualidade... mas não é o que falam do Galpão, lá rola o isômero D, o mais, mais.
― Sei que falam do Dr. W toda essa asneira de metanfetamina, mas comigo nunca nem me propuseram missões do tipo ― Ernaldo mentia, a verdade é que não lhe deram muita escolha.
― Pô cara, queria te dizer, mó respeito...
― Que é isso, tá me estranhando?
― Nem um pouco, mano, cê sabe que cê é uma lenda viva.
― Sai pra lá Rebeca, corta esse mimimi, não tem lenda não, só tem estar vivo. Estrela neste esporte não chega a vovô.
― Você chegou aonde ninguém chegou.
― Pode ser, mas juro, não foi me achando o rei da cocada que fiquei vivo até agora.
― E esse Dárius, hem? Não parece amar demais a própria pele, tem pinta de maluco de dar com pau em pedra...
― Por isso que resolvi não ir no carro com ele, vou dormir na mira desse cara. A conta dele não fecha.
― Se pisar na bola com a Pernilla, deixa eu finalizar ele. Trato?
Riram.
Mas a mortadela insistia em voltar à sua boca, odiava ter de mentir para os seus homens. Já não podia escolher muito, lembraram-no disso. Estava ficando velho. Tinha de engolir Dárius e tudo mais que lhe mandassem, compreendera que não ia sobreviver a uma sala fechada com a mesa cheia de papéis, não se via vinte e quatro horas por dia enredado na política da Colônia.
Os problemas começaram ao deixar as ruas secundárias, perto do entroncamento da via principal, ao sul, o asfalto quase desaparecia no primeiro trecho aberto do caminho. O off road precisou abandonar o seu posto de observação na esquina para ajudar no desatolamento.
Neste momento, ouviram os latidos vindos do fundo da avenida. Uma matilha enorme, faminta e em disparada.
Rebeca pulou na cabine, Ernaldo se trancou no cockpit traseiro, testando duas vezes a ignição do lança-chamas. Ajustou o laser. Arrancaram na direção do bando, dispunham de pouco tempo até serem alcançados e precisavam criar uma distração ― sem se deixar capturar, o que era menos evidente, já que a velocidade do carro era um nada superior à dos cães.
Poucos pilotos executavam tão bem a manobra em U: Rebeca dirigiu a toda a velocidade na direção da cachorrada, trafegando bem aberta pela direita do asfalto; a poucos metros deles, deu um cavalo de pau de trazer o café da manhã junto com os bofes pra fora. Naldo ficou de frente para um mar de focinhos arreganhados, rosnando enlouquecidamente.
― Quipariu, Rebeca, cê precisava chegar tão perto?!
― Vamo, cara, aciona logo essa porra de apito!!
Mandou um jato de chamas nos vira latas que quase encostavam na carroceria, e se virou para alcançar o Silent Dog Whistler. Rosqueou o tubo na posição três, soltou dois silvos curtos, agudíssimos, praticamente inaudíveis: pii-pii. A matilha parou de repente, como na brincadeira de estátua.
― Força Beca, pé embaixo mulher, a bobeira deles não vai demorar pra passar...
― Segura, peão, que nós vamo fritar pneu!
Refeitos do susto, os cães retomaram a perseguição. Problemão: os companheiros só agora conseguiam pôr a jamanta em marcha no atoleiro deixado pela chuva. A falange canina se dividira em duas, a maior parte perseguia-os de perto, um grupo menor dava caça ao caminhão. O lança-chamas de Dárius falhou, obrigando-o a gastar toda a sua cota de granadas nos mais próximos. Se equilibrando com dificuldade na caçamba, ele lutava no corpo a corpo, golpeando com arpões e lâminas, alvejando o laser nos olhos da canzoada.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#1)




            Além disso, era um daqueles homens que preferem observar a própria vida, julgando impertinente qualquer ambição de vivê-la. Deve-se acrescentar que Ernaldo observava seu destino pessoal da mesma maneira como os outros, mais numerosos, costumam olhar pela janela um dia de chuva.
            Pouco antes que saíssem, começou a cair uma chuva miúda. Expedição suspensa, por enquanto.
            Se tivessem lhe perguntado, Ernaldo teria respondido que a sua vida continuaria assim para sempre até o final previsivelmente abrupto.
Na certa acabaria devorado pelos bichos, ou morto por algum bando de saqueadores rivais, como, de resto, tinha visto acontecer ao longo dos anos a toda uma geração de companheiros. Perdas em ações externas, segundo o discurso oficial. Toda a sua geração. Era o mais velho, mais experiente, o chefe da operação.
            Um grupo sem novatos, Dárius, Rebeca, Pernilla, e ele. Dois em cada veículo, sem blindagem, mas equipados com canhões de grosso calibre. Sem pressa, terminaram de carregar equipamentos e víveres no caminhão: lasers, granadas, lança-chamas, mochilas de alpinismo, latas de embutidos, anfetaminas, se precisassem passar a noite fora, além de ampolas de propofol, caso fossem capturados.
            Pernilla e Rebeca são casadas, motivo pelo qual pôs a primeira para dirigir o caminhão-caçamba, e a segunda com ele na off road. Adotava esse sistema quando havia mais de um carro, se um veículo se perdesse do outro no meio da missão, a relação forte entre dois soldados sempre funcionava como estímulo adicional na hora de se decidir pelo resgate.
            Ernaldo tinha mais tempo de comando do que os outros de correria, mas não era isso que o preocupava naquela manhã. As meninas eram muito boas de serviço: firmeza, lealdade e, sobretudo, um tipo de coragem sem o tempero da estupidez. Dárius era o cabelo na sua sopa. Temerário, descuidado, conduzia-se por hábito no limite da insubordinação, fazia parte dos desperados, aqueles que entram na milícia faltos de opções e vocação.
            Perdera toda a família num ataque das feras.
            ― Naldo, nós só estamos aqui porque somos “diferentes”.
― Caramba, preferia que você estivesse decorando os caminhos alternativos no mapa, em vez de fazer filosofia...
― Bah, isso o GPS faz sozinho... tou falando dessa vida que a gente leva, dizem pra nós: “não há mais nobre profissão dentro da Colônia”, “vocês são a reserva moral da comunidade”, e por aí a fora. Puta hipocrisia...
― Bom, se você quer tanto saber, também reconheço a falsidade social, não vivo numa bolha... só que, não inventei e não gosto desse jogo, nem existe a hipótese “não-vou-jogar-nunca”, mas há coisas que são reais. Sobreviver é uma delas, meu foco tá aí.
― Certo, é bem isso que se espera de um comandante: foco, disciplina, deixar fora todo o resto...
― Numa coisa você tá certo, é uma pérola do humor negro, agora que estamos todos igualados na mesma lama, nego ficar com essas baboseiras de subespécies, raças, aptidões inatas...
― Era disso que tava falando... nós vivendo na duranga, e só se fala merda por todo lado, um monte de gente afirmando isto, negando aquilo, e vice versa, enquanto a garra aperta, o cerco se fecha à nossa volta!
― Ok, Dárius, mas, qual a alternativa? As pessoas só conseguem levar em frente se alguém estiver o tempo todo a lhes aparar as arestas do mundo com histórias da carochinha... faço o quê com isso? Agora, quando a gente entra em ação, é preciso apagar as ideologias, limpar os sentidos para se deixar guiar pelos instintos, o medo carnal. Acredito no que sinto, não no que minto.
― Hoje, quando olho pra dentro, descubro pouco medo em mim.
― Já tinha percebido. Vou ser muito direto. Isto não me agrada, não ouça como julgamento sobre você e suas motivações, só não quero minha equipe correndo riscos desnecessários.


sábado, 30 de novembro de 2013

o espia


nas gavetas vazias
no fosso de despejo
Nas baratas do pensamento
no tesão embutido

pelas frestas, a luz inventada
vem o sono dos sonhos
vigiar vultos desvãos 
as coisas se furtam

nunca sandálias janelas
abertas
como o branco dos olhos
como o nada atrás

da porta

domingo, 24 de novembro de 2013

os apátridas (epílogo)



“Na situação sem saída em que me encontro, não tenho outra alternativa que não seja pôr um fim a tudo. Será nesta pequena cidade dos Pirineus, onde ninguém me conhece, o meu ponto final. Peço-lhe que transmita meus pensamentos ao meu amigo Adorno, e lhe explique a situação em que me encontro. Não há tempo suficiente para que escreva todas as cartas que gostaria.”
Nunca li nada escrito por Walter Benjamin. O que conheço das suas idéias é de ouvir falar. Mesmo estas linhas que transcrevi acima, me foram reproduzidas de memória por Henny Gurland, quando a encontrei anos mais tarde em Londres. Depois disso, perdi-a de vista, nunca soube do destino posterior dela e de seu filho. Acabei por me fixar nos Estados Unidos após a guerra, e só agora, exatos quarenta anos passados dos fatos aqui relatados, é que reuni coragem para escrever sobre algo que ainda dói como se tivesse acontecido ontem.
Acredito que sejam as últimas palavras escritas por um dos maiores pensadores do século vinte. A senhora Gurland precisou destruir a carta que as continha, premida pelas circunstâncias ameaçadoras de então. Seguindo as instruções do professor, o manuscrito da mala preta foi entregue a um homem identificado como Charles Marcel numa praça de Madrid depois de contato telefônico.
Naquele dia, retornei rápido para Port-Vendres. Não sentia cansaço algum, estava aérea, despreocupada, com a sensação de que o mundo perdera um pouco do seu peso insustentável. Lembro vagamente de ter encontrado três mulheres na volta, duas das quais conhecia de vista, que também faziam a travessia para o lado ocidental. Conversamos brevemente, trocamos informações sobre o trajeto e nos despedimos. Não dei importância maior ao fato, afinal, eram muitos os que tentavam a sorte nas montanhas naquele período nebuloso.
Poucos dias durou a minha alegria, porém. As más notícias, como de hábito, não tardaram: Walter Benjamin se suicidara em Port-Bou. As autoridades da fronteira espanhola avisaram ao grupo que eles seriam devolvidos à França, faltava-lhes o passaporte com visto de saída da França. Não havia nada a fazer, vigiam novas diretrizes aduaneiras: os vistos de entrada expedidos em Marseilles tinham perdido a validade, legalmente, não poderiam cruzar a Espanha. Os três caíram numa espécie de limbo, uma vez que não possuíam os documentos (cassados) de origem, passavam agora à condição de apatrides, ciganos, não-cidadãos sem eira nem beira.
Vivíamos na era das “Novas Diretrizes”, em que cada escritório governamental de todos os países da Europa parecia dedicar tempo integral a decretar, revogar, baixar e suspender novas ordens e regulamentos imigratórios. Era a barbárie na sua feição burocrática. Sobreviver não era só uma questão de se esconder nos sótãos, porões, campos e florestas, mas também de aprender a passar pelos buracos, desvãos e escaninhos da diplomacia em colapso. Algum funcionariozinho imbecil, em alguma repartição cinzenta, teve uma idéia... e conseguiu quebrar a espinha do Velho Benja!
Il faut se débrouiller, diziam-nos, é preciso ter a audácia e a malícia de cortar pelo nevoeiro, achar um caminho em meio à derrocada geral de valores que as guerras trazem inevitavelmente consigo. A maioria de nós se virava como podia, forjando tíquetes extras de pão e leite para as crianças, contrabandeando remédios para os doentes, ou falsificando documentos, permissões de qualquer tipo; outros, “colaboravam” com as forças de ocupação. Benjamin não era colaborador, nem débrouillard, mas uma dessas plantas frágeis que a civilização só consegue manter vivas em condições ótimas de razoabilidade e delicadeza.
A única certeza que carregava era a de que, nem ele ― e muito menos seus preciosos escritos ―, em hipótese alguma, voltariam para as mãos da Gestapo. O percurso acidentado o esgotara animicamente, estava certo de não conseguir repetir a façanha. Confessou-me durante a escalada que trazia morfina suficiente para tirar sua vida várias vezes, “caso sobreviesse o pior”. E foi o que acabou fazendo, ao ver-se acuado. Pressionadas pela repercussão do suicídio, as autoridades espanholas foram forçadas a revogar suas diretrizes kafkianas e liberaram seus companheiros de viagem.
Recentemente, o professor Gershom Scholem, melhor amigo e curador da obra de Walter Benjamin, me telefonou de Londres; falamos do seu trabalho e daquela sua última caminhada. Ele se interessou por cada detalhe que consegui lembrar, ao final, disse-me que nunca tinha ouvido falar da tal pasta preta, “até agora, ninguém sabia que tal manuscrito sequer existisse”. O mesmo me foi dito por outra amiga dele, a professora Hannah Arendt. Permanece até hoje o mistério sobre o paradeiro daquela mala cujo conteúdo era mais importante do que a própria vida.
Cada época sonha a seguinte. É incrível como um filósofo tão profundo, vivendo enfurnado em bibliotecas, um crítico apaixonado por autores do passado, tenha sido capaz de antever com tamanha lucidez as múltiplas configurações, padrões e formas do mundo contemporâneo. Vivo na América, o maior shopping center do planeta, onde o Velho Benja nunca pôs os pés, e, no entanto, este país encarna como nenhum outro a utopia destrambelhada que ele profetizou. O Hipermercado onde tudo e todos são commodities, Grandville, estão aqui: no sonho orgulhoso de liberdade, na desmesura dos arranha-céus, na imensidão das highways, no mais fútil dos modismos.
Tudo ainda me magoa tanto.
Às vezes me pergunto se a memória me pregou uma peça, depois, penso que não, poderia ter inventado tudo: os Gurland, a route de Lister, as mulheres que encontrei na volta, a patrulha nazista, mas não a maldita pasta preta à qual aquele pobre náufrago se agarrava. O que conteria? Aparecerá algum dia em um depósito velho de Madrid ou Zanzibar? Será que este livro perdido poderia ter aberto os olhos da humanidade e evitado futuras guerras?
Acontece que a sabedoria não se recebe, é preciso descobri-la por si, merecê-la ao final de um trajeto que ninguém pode fazer por nós, do qual ninguém poderia nos poupar ― porque a sabedoria representa um combate, derrota e vitória: ela é um ponto de vista pessoal sobre as coisas. Isto aprendi no alto da montanha.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

os apátridas (3)



            ― Lisa, você nunca reza? Mamãe está lá dentro, rezando pelo komischer Kauz...
― Hehehe, você tem razão: ele parece mesmo uma coruja. Não, eu não rezo nunca... minto, rezo sim: pra esta loucura em que o mundo mergulhou acabe logo.
― Não consigo dormir, quer que eu fique de guarda?
― Obrigada, José, acho que nenhum de nós vai pregar o olho esta noite.
― O professor me disse que nunca houve uma guerra boa, nem uma paz má...
― Viu só? Não se preocupe, ele é muito inteligente, vai saber se virar.
A cena se gravou feito cicatriz na minha memória. Entre tanta gente que ajudei a escapar, a imagem daquele sujeito franzino no limite das suas forças físicas, e mesmo assim tão agarrado ao seu senso de dever, ficou para sempre em mim. Durante toda aquela noite branca pensei que tinha descoberto uma razão para continuar, havia finalmente um sentido no que eu fazia. Qualquer pessoa vale a pena ser salva de uma morte estúpida e inútil. Como todos os outros, o Velho Benja lutava por salvar a própria pele, a diferença é que, de uma maneira que então apenas intuía, ele o fazia também por nós. Pessoas assim fazem acreditar que a humanidade vale o sacrifício, que a barbárie não terá a palavra final.
Levantamos acampamento antes do sol surgir por trás dos montes; com alguma dificuldade, achamos a pequena trilha ladeada a noroeste pelo rochedo e seguimos, acelerando inconscientemente o passo rumo à clareira, contornando o azinheiro. Lá está ele! Sentado no mesmo lugar, na mesma posição do dia anterior. Sua aparência estava ainda mais amarrotada, a barba por fazer ainda maior, seus olhos de sonhador perdidos como nunca. Atiramo-nos sobre ele num impulso de alegria descoordenada, tropeçávamos uns nos outros, abraçávamos e beijávamos o constrangido intelectual.
― Mein schätze, mein liebe Professor, como... como foi...?
― Oh, por favor, não chorem. Estou bem, nada me aconteceu, como podem constatar.
― Sozinho... aqui, ao relento... na noite fria!
― Por pior que seja, o presente é finito, encerrado na esfera do vivido, só a lembrança é sem limites, porque contém a chave para tudo que veio antes e depois. Vamos em frente.
Esquecer e partir. Foi o que fizemos imediatamente, era tudo que fazíamos desde que a praga do conflito descera sobre a Europa, arrastando nossas vidas num turbilhão insensato de sangue e horror.
A subida foi ficando progressivamente íngreme, a trilha, mais e mais interrompida por mato bravo. Mantínhamos a orientação pelo platô dos sete pinheiros à nossa direita. Em certos momentos, a route Lister se aproximava da estrada oficial; antigo passo de contrabandistas, muitas vezes nosso caminho corria encoberto apenas pelo ressalto no bordo da encosta. Acima de nós poucos metros, escutamos soldados do Reich conversando enquanto fumavam numa parada. Prendemos a respiração petrificados, o idioma alemão agora provocava estas reações instintivas de medo.
Enfim, avistamos a vinha que indicava o melhor ponto de travessia da cordilheira. Não havia pista alguma no chão, a inclinação era praticamente vertical; subíamos agarrando as cepas lenhosas, carregadas da uva escura e doce de Banyuls. Pela primeira e única vez, o professor fraquejou, avisando formalmente que a escalada final estava além da sua capacidade. José e eu tomamos o pobre homem nos ombros, carregando a ele e sua bagagem morro acima ― respirava pesadamente, mas não fez uma queixa, nem um suspiro, apenas espreitava minuto a minuto a mala preta.
Quando alcançamos um vale estreito entre os espigões de pedra, paramos para comer. O vento soprava furioso, arrancando o chapéu da senhora Gurland. A água acabara. Comemos pouco, na verdade, ninguém comia muito: primeiro, tinha sido o campo de concentração, depois, o racionamento. Nossos estômagos haviam encolhido, nossos corações, também: estávamos sentados ao lado do esqueleto de um animal, e dois abutres sobrevoavam as nossas cabeças.
Enquanto os outros descansavam, resolvi sair para uma exploração das redondezas. Uma curta volta em meio a rochas escavadas pelo degelo, e então, vi. Lá embaixo, reaparecia o Mediterrâneo: do lado de onde viéramos, a costa francesa, do outro lado, bem à minha frente, o azul do mar da Catalunha. Com o Roussillon atrás, a norte, surgia diante de mim La Côte Vermeille, o mais magnífico arranjo de falésias, morros e vegetação, na qual o outono se divertia exibindo uma paleta luxuriante cobrindo todos os tons de vermelho, ocre, e laranja que existem na imaginação e fora dela. Estava embriagada de beleza e acrodementia, o mal das alturas.
― Se me permite uma citação de Proust, diria que esta é a beleza que nos promete um tipo de felicidade desconhecida, um prazer tão outro, que morremos sem saber que ventura seria essa...
― Herr Benjamin, que susto! Não esperava que fosse o primeiro a me alcançar...
― Os Gurland estão vindo já. Senhora, não tenho como agradecê-la suficientemente pelo que fez por nós. É dona de uma grande alma, Fräulein...
― Pare, professor, peço-lhe. Já me fez chorar o que não chorei em meses... Veja ali, uma estrada de verdade! Sigam direto por ela até Port-Bou, têm os visas para atravessar a Espanha e chegar a Portugal, mas isso já está cansado de saber... Não posso me arriscar a ser pega em território espanhol sem visto.
― Adeus, até breve!
― Adeus, vão agora.