sábado, 8 de fevereiro de 2014

Acumulação primitiva das sombras (#1)



            E isto funciona.
            Mas funciona, como?
            Funciona, apenas funciona. Tudo funciona, e é isto o mais inquietante, que tudo funcione, e que este funcionar impulsione cada vez mais longe o funcionamento.
A organização moderna do caos.
Pode apostar.
Mas se aqui só há setecentos e poucos habitantes fixos, vá lá, que chegue a mil e trezentos no verão...
            Pensa, são setecentas pessoas, tira as crianças, o bicho gente é estatístico igual aos outros: por volta de dez por cento. Daí que temos uma metade da laranja que não interessa, e vice versa, sobram os outros trinta e cinco com gostos mais ou menos semelhantes.
            Trinta e cinco?
            Desses, digamos que dez não queiram nem pintado de ouro, ainda ficaram vinte e cinco. E sem contar os flutuantes eventuais...
            Vinte e tantos... plus extras?
            Estes últimos são menos regulares, mas mais emocionantes.
            E eu pensando que as cidades pequenas eram monótonas...
            A cidade era realmente pequena, mais para vilarejo que outra coisa. Um quilômetro de extensão ao longo de uma estrada que se bifurcava em Y na direção do sul. No entroncamento de onde partiam as três direções possíveis, ficava a capela centenária, marco zero do povoado; crescendo a partir da pista de duas mãos sem acostamento, um bordado irregular de casinhas e pequenas propriedades se esparramava rumo aos campos e montes circunvizinhos.
            A agência bancária, os correios, um posto de saúde, a igreja, a prefeitura, o mercadinho e o café, eram os pontos focais da escassa população. Apesar do extenso calendário de festejos e eventos religiosos e cívicos, havia em curso um acalorado debate público sobre qual a data mais adequada para se comemorar a fundação do município. No fundo era uma guerra santa, já que o aniversário da cidade coincidia tradicionalmente com o dia de São Simeão, santo da paróquia, embora não fossem poucos os que defendessem oficializar o dia do padroeiro da capela, São Leonardo, o que acarretaria mudar a maior festa da cidade do dia seis de novembro para o dia cinco de janeiro.
            Engana-se quem pensa.
            Não há um único homem que não seja um descobridor...
            E as mulheres são o quê, uma descoberta?!
            Bom, eu falava num sentido geral...
            ... claro, as mulheres costumam estar fora do sentido geral. É o hábito.
            Contudo, sempre há alguém que surge do nada e abre uma porta...
            ... para o infinito. Como esta discussão.
            Odeio adversativas. Contudo deveria ser com-tudo, mas, porém, todavia, no entanto, contudo sempre deixa de fora uma exceção: um mas.
            São os parasitos, partículas da disjunção, da confusão de alhos com bagulhos.
            Muito piores são os expletivos, perfeitamente dispensáveis.
            Senhores, senhoras... voltemos, assim nos perdemos no assunto principal, digo, do assunto...
            Pois é, voltemos e votemos, precisamos decidir entre o seis e o cinco.
            ... uma unidade, apenas.
            Qual, são dois meses de intervalo!
            Dois meses, menos um dia.
            Roma e Pavia...
            O fato é que não conseguimos decidir nada, está acontecendo o que acontece toda vez: não chegamos a lugar nenhum.
            Mas... se isto que chamo de lar, o chão onde descansam os ossos dos meus antepassados, é o próprio lugar nenhum...
            Nós nunca vamos sair daqui, somos os que ficaram pra trás.
            Por quê? Presos a quê?
            Ao dispositivo.
            Dispositivo?
            Não é só o sistema que demonstrou sua eficácia milenar, mas um lento, profundo e implacável enfeiamento do mundo que empobreceu a experiência de todos e cada um, substituindo-a por uma ciranda de desejos mesquinhos e jamais satisfeitos.
            Nada além de sombras, aqui nunca acontece nada.
            Todo indivíduo projeta a si mesmo no que está à sua volta.
            Quando souber de quem sou a sombra, indiferentes serão para mim vida ou morte.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

tocar a pele do agora


quando se abraça o instante
tudo que estanca
move
nasce pra morrer de novo
e voltar
adiante com os vermelhos
da manhã tão branca
e para que tu saibas
abismo
ainda estou aqui

sábado, 11 de janeiro de 2014

Leviathan melanophyllus (final)


O retorno foi um festival de contratempos, a começar pelo teiú esfomeado que lhes bloqueou o acesso da escadaria; em seguida, um ataque de formigas-de-correição obrigou-os a fugir pela via mais íngreme dos rufos e tubulações de água pluvial. Escorregaram velozes dentro dos coletores forrados de limo rezando para não encontrar obstruções na descida vertical ― uma trombada brusca, e o lote de nitroglicerina que carregavam nas mochilas os transformaria em patê de gente.
Se destabacaram no jardim, onde encontraram barra limpa. As motoristas tomavam água sentadas à sombra do caminhão. Carregaram rapidamente e saíram cantando pneu. Ernaldo mudou as duplas para a volta: pegou o volante do jipe ao lado de Dárius, necessitava estreitar a vigilância sobre o comandado. Durante dez minutos rodaram em silêncio. Miados ferozes, poucos quarteirões à frente de onde se encontravam, forçaram novo desvio. Desceram mais ainda, a sudoeste, na direção das margens do rio, de modo a contornar os felinos.
O sol começava a declinar, mas o mau cheiro ribeirinho entrava na cabine do carro sem a menor cerimônia.
― Boss, já ouviu falar da porca croca?
― Porca cro... que porca, que buzanga é essa?
― Uma coisa que o meu avô contava, da época em que se mandava nos animais, quando uma galinha não fazia o estrago de um tiranossauro... É o seguinte: a bicha pira na batatinha, e em vez de dar de mamar pros filhos, ela sufoca e mata os leitõezinhos. Vinha o povo e matava na hora, porque diziam que já não servia pra criação.
― Hmm, bela história motivacional... Assim que os teus miolos descansam da peleja...
― É que, tipo, não consigo parar de pensar...esse químico maluco tá falando uma verdade: nossa gente larga os desobedientes na rua, desarmados, chamam isso de justiça, invadimos e roubamos outros povos, mas trata-se apenas de ataques preventivos... Cara, já faz tempo que a república virou império!
― Dárius, esquece o Dr. W, ele adora por minhoca na cabeça dos outros. Não estamos numa situação normal, talvez nunca mais voltemos a uma, temos que agir e reagir sem padrões muito elevados de ética ou uma moral coerente... Viramos soldadinhos de chumbo, pilotamos brinquedos recondicionados, nossas bombas?, biribinhas... as foices?, facas de manteiga, lâminas afiadas do cabo de colheres de café! Só que aí eu não vejo alternativas na praça, nada muito diferente por aí.
― Há sim, sempre existe outro lugar se você se mantém em movimento. Ninguém está naquilo que quer sentir, mas no que sente sem querer; já não sinto que posso continuar fechado lá na colônia. Eu quero ir, preciso ir. O mundão é perigoso, mas aberto... aquela colônia encolhe a gente, quer dizer, mais ainda, não...?
― E você pensa que eu emborco o xarope todo sem engulhar? Vem essa porra de bolor radiativo e encolhe todos pro tamanho de lagartixas, daí, quando desaparece o preconceito de raça junto com a cor da pele, vem a discriminação por tamanho, e então, nós, os baixinhos entre os nanicos, viramos a população descartável, os soldados, os mão-branca que fazem o serviço externo sujo... Acha que eu amo muito tudo isso?!
― Pois então, Naldo, tu é militar, eu não, tu é conhecido como o maior sobrevivente, eu, entrei na correria pra achar um meio de me matar com dignidade... Você foi o primeiro a perceber que não sou do ramo, cara, sou só um cretino que perdeu tudo. Deixa esse bote inflável na minha, olha pro outro lado lá na marginal, que eu sumo pra nunca mais nessas águas imundas. Vou subir com o rio, ma direção do interior. Conta a história de sempre pros caras: perdas em combate. Acontece todo o dias, ninguém liga.

Rebeca não se conformava. Como se não bastassem armas e vitualha, Ernaldo ainda pusera dinheiro na mão do desertor. Socava o painel e praguejava com as mãos longe do volante, e o caminhão em disparada.
― Que caralho! Essa do Naldo é foda, não entendo, deixar o mala se mandar assim na boa, e mais grana, comida e roupa lavada...!
― Pô, Beca, o cara foi firmeza naquela treta do louva deus, dá um desconto... Além de que, o Naldo tá certo: ele não tem o que fazer na Colônia.
― Bom, se o camarada agüenta esses nossos corres, é porque inútil de tudo não é...
― Inútil é exatamente o que ele é, não tem razão de ser em si mesmo, nem função dentro do grupo. O Dárus é uma máquina celibatária: impossível, inútil, incompreensível e delirante. Melhor pra ele que deitar raízes, é se deslocar, mudar de ares, recomeçar. Talvez seja a única maneira de não morrer rápido.
Ouviram o adeus do companheiro. Ernaldo fez-lhe as últimas recomendações: tomasse cuidado com falcões mateiros e cobras-d’água. O vento tinha levantado novamente, nuvens adensando a leste.
Ele desceu por entre um bando de capivaras que pastavam. Ficou por um instante à margem, antes de laçar o bote.
Olhava a superfície das águas se encrespar formando figuras imprevisíveis que brilhavam ao acaso em todas as direções.
O vento era um só, mas naquele espelho d’água pareciam ser mil os ventos que sopravam.
De todos os lados.
Um espetáculo inexplicável, abrupto, guiado pelas combinações imprevisíveis da sorte ― a sua vida.
Só começava a entender.


sábado, 4 de janeiro de 2014

Leviathan melanophyllus (#4)



 ― Então, Ernaldo, quer dizer que você virou babá de gente grande? Hahaha, gente grande, hehehe, desculpem, às vezes me dá dessas... hahaha!
Nenhum deles riu. Ernaldo coçou a nuca ao tirar o capacete, tentou remediar o mal estar. Não que adiantasse grande coisa quando se tratava de Walter Blanco, o Dr. W. Completamente sem pêlos, exceção feita ao cavanhaque, envergando um jaleco imundo, sandálias idem de couro trançado, fedendo a amoníaco, aquele era o químico responsável pelo laboratório top do pedaço. “Tipo do cara que as pessoas só suportam porque precisam”, Dárius lembrou do perfil sucinto traçado pelo chefe a caminho do laboratório.
― Zoa não, doutor, o rapaz aí tem couro de jacaré, soldado dos bons...
― Soldado, é? Hum, sempre esqueço que vocês lá da Colméia gostam de brincar de casinha: governador, soldados, agricultores, profetas, administradores, uma beleza de comunidade... regrinhas, leis, prisão, expulsões, ostracismo e tutti quanti do receituário habitual de República-Utopia.
― Pois é, a gente dá um duro pra se organizar. Devia fazer o mesmo, deixamos nossas motoristas lá embaixo soterradas por um exército de baratas. Gastar mais em limpeza seria bom...
― Ora, ora, o que são as peludinhas voadoras perto de homens tão bem treinados? Se conheço bem as moças que te acompanham, não vão dar piti por causa de uns poucos artrópodes.
― Uns poucos?! Esse cara não sai desta toca há quantos anos? ― acachapado pela profusão de tubos, contêiners, bombas, centrífugas, freezers, frascos, barris, ampolas, retornas e fornos, Dárius principiava a se dar conta da náusea, efeito das fumigações nauseantes do que parecia ser um alambique de xixi do capeta.
Além dos equipamentos, pouco ali lembrava uma refinaria: quem contemplasse a balbúrdia das bancadas decrépitas daquele loft, os gritos e tropeções da malta frenética de assistentes maltrapilhos, dificilmente suspeitaria que um trabalho minimamente coordenado estivesse em curso naquele pardieiro. O famoso Galpão nem mesmo era um galpão, mas um edifício de quatro pisos. Apenas os dois andares superiores eram utilizados, no térreo e no mezzanino vigia um comodato simbiótico com as baratas e os ratos.
― Brejeiro, né, soldado? Dizer que isto já foi uma fábrica de anjinhos...
― Hã?! Que porra...?
― Uma clínica de abortos. Você não sofre demasiado da inteligência, hem rapaz? Demora pra pegar... tá no ofício certo, não força o miolo à toa. Homens de ação só pensam quando agem, parados, não valem nada.
― E você, professor, pensa muito antes de ser escroto com alguém?
― Ahá, bravo Ernaldo, finalmente você me trouxe alguém capaz de falar ― Dr. W tirou os óculos de armação quadrada e fixou Dárius com interesse ― Saiba que aqui se produzem vacinas, remédios, fertilizantes, explosivos, e também a jóia da coroa, a mercadoria que vocês necessitam como o ar que respiram: alucinógenos pra suportar o autoengano. Escroto, você disse? Esteja certo disto, nada é mais escroto do que a vida de um homem inteligente nos períodos trevosos da barbárie.
― Blanco, por favor, confira a nossa a mercadoria e dê o seu ok pra podermos fechar o escambo. Temos uma descida complicada à nossa espera com as mochilas cheias ― Ernaldo apresentava papéis e faturas na esperança de desviar o assunto.
― Cê tem bronca de soldados, né doutor? Devia mesmo era contratar alguns seguranças pr’esta sua birosca, tá criando mais bicho que esgoto.
― Inutilidade cara, rapaz. Isto é negócio...
― Belo negócio o seu, sintetizar drogas!
― Bah, um dos comércios mais antigos da humanidade. Além do quê, não preciso de bedel: os bicharocos têm medo do cheiro deste lugar.
― Hahaha, medo?, pergunta pras ratazana lá de baixo, fio...
― Tá rindo de quê, meganha? Meu business é sério, não engano ninguém, não: quem tá comigo, tá pela grana. Cansou? Cai fora, vai curtir a vida com dinheiro no bolso. Ih, Naldo, acho que dei com a língua nos dentes de novo...
― Nunca falta esse seu número, certo Walter? Se prepare Dárius, agora vem a parte em que ele fala sobre todos os defeitos da Colônia.
― Pois é meninão, pela tua cara, parece que ninguém te contou sobre esse “detalhe” da vida adulta: o dinheiro ainda existe, e ainda é a mola que dá corda na máquina do mundo. Aposto que também se “esqueceram” de falar sobre a Ilha do Prazer, do Círculo, do McSweeney’s e de todo o resto, não foi? A vida é muito mais do que trabalhar pela grandeza dos ideais da Colméia... você é jovem, tá esperando o quê? Que bonita coisa sustentar os privilégios duma casta de representantes do vazio! Olha ali ― Dr. W apontou para o embrulho que dois ajudantes acabavam de depositar no chão. ― Acha mesmo que dá pra trocar esse tanto de meta da melhor qualidade pela comidinha da sua granja? Nosso escambo principal é money, bufunfa, moeda sonante, esse o peso artificial que acerta todas as balanças... se da mochila do teu capitão não sair o ouro que me devem, nego, necas de pilulinhas pra embalar os festivais do socialismo hippie da tua tribo. Colônia Cecília, ainda tiveram o desplante de homenagear os libertários do passado... O tempora o mores!
― Caramba, Blanco, só porque você tem esse câncer incurável não tem o direito de... Dárius, a gente que tá nas ruas, vive uma outra realidade, você sabe que algumas informações são...
― Subtraídas. É isso que cê ia dizer? Não, claro que não, você já até tá falando como eles, Ernaldo... um dia desses você se descobre um belo de um burocrata, no seu posto importante de back office, mentindo pra alienados que não querem ouvir a verdade. Ah, sim, vocês são muito estritos lá na Colm... na Colônia, vocês põem criminosos na rua sem armas. O que isso significa soldado? Seja sincero.
― O Ernaldo falou tudo, se organizar não é nenhum pecado em tempos tão perigosos como estes, há várias comunidades como a nossa... Você não é o chefe desta bagaça? Vocês não têm leis aqui?
― Temos uma lei só: o mercado. Se pagam melhor fora, o sujeito vaza. Sem ramelagem, sem choro, nem ranger de dentes. Mando sobre aquilo que entendo, química; sobre o resto, quem pode legislar?, cada um sabe o que é melhor ou pior pra sua vida. O advento do Leviathan foi uma catástrofe natural com o auxílio luxuoso da incúria humana, não um castigo divino.
― Você sabe por que ficamos assim, pequenos?...
― Mocinho, na ciência, chegamos no máximo aos “comos”, os “porquês” ficam na área restrita ocupada pelos seus marqueteiros e místicos. Hahaha! Tudo que sei é que a epidemia começou a se espalhar a partir de Three Miles Island, Fukushima e Chernobyl... o caso mais bem documentado é o de Chernobyl, o maior evento nuclear da história, equivalente à explosão de quatrocentas bombas de Hiroshima: décadas depois de ter sido selado com toneladas de chumbo e concreto, numa inspeção de rotina com câmera-robô, descobriu-se uma mancha escura crescendo nas paredes do reator quatro. Nada menos que trinta e sete espécies de fungos mutantes sobreviviam num lugar onde não poderia haver vida pelos próximos novecentos anos! De alguma maneira, o Clodosporium sphaerospermum e o Penicillium hirsutus aprenderam a usar a radiação atômica e o pigmento melanina como as plantas usam a clorofila e a radiação solar pra produzir energia. Eles descobriram a radiossíntese. Em humanos, estes fungos provocaram alterações no DNA, reduzindo a humanidade a criaturinhas albinas com quinze centímetros de altura. E assim chegamos a esta situação: indefesos, isolados em bunkers, dirigindo carrinhos de brinquedo, usando armas improvisadas contra o novo predador do topo da cadeia alimentar: o gato doméstico.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#3)


― Cê tá bem aí atrás, Dárius?
― Só alegria. Os totós até já tão tirando no palitinho quem vai ser o primeiro a deschavar nóis!
― Cara, tô dando tudo, tô enfiando o pé na tábua, mas esta bagaça tá cheia demais pra correr!
― Suavão, Pernilla, meu negócio não é dar volta de charrete na pracinha, tá bom pra espantar o sono.
Pouco depois de uma lombada, a passagem estava obstruída pelo duplo desabamento de um poste de iluminação arrastado ao chão na queda do alfeneiro da calçada oposta. Do lado da raiz a passagem era larga o suficiente para um veículo e meio, passaram, a confusão no afunilamento da massa de perseguidores valeu-lhes preciosos metros de vantagem. Os veículos emparelharam novamente, sempre fugindo na direção do morro.
― Como é que tá aí, Nilla?
― Tranks, chefia, o chato é que, na subida, esta banheira anda bem menos...
― E você, Dárius, algum machucado?
― De boa. Só que gastei as biribinhas todas nos pulguentos.
― Tamo com sorte, olhem lá adiante... ― Rebeca chamou a atenção para o alto da estrada, onde a avenida ladeava uma pequena praça e se dividia numa subida abrupta a sudoeste, e um braço de asfalto sinuoso rumo ao norte.
A carcaça de animal grande, capivara talvez, era disputada por uma nuvem turbulenta de urubus ao lado do que tinha sido uma banca de revistas. A matilha partiu pra cima sem hesitar, apenas uns poucos desgarrados continuaram no encalço deles.
― Segura aí minha gente, vou peidar na fuça da cahorrada...!
A bomba, lançamento preciso de Naldo, fez os últimos rafeiros desistirem. Brigar com os bicuços de repente parecia bem mais divertido; pra quem chafurda em porcaria o dia todo atrás de restos, a inhaca da carniça satisfaz mais o paladar do que o gás lacrimogênio.
Resolveram se abrigar sob o ponto de ônibus tomado pelo mato. A pequena praça adjacente era uma fonte verdejante regurgitando ondas de proliferação vegetal, as grossas raízes das figueiras-bravas cresciam desenhando um reticulado art nouveau entre os blocos remanescentes do calçamento. O restante da subida era bastante íngreme e em terreno relativamente aberto, então, viria a travessia da grande avenida, onde estariam completamente à mercê do ataque das aves de rapina.
― Pelo menos os gatões ficam longe com esta algazarra de uivos ― Rebeca checava os danos e baixas do arsenal.
― O asfalto é ruim na escalada, mas dá passagem... o que tem são os pombos que tomaram as casas da bira, digo, da beira da...
― Hmm, seguinte, estamos no limite do que podíamos ter gasto de munição a esta altura... ainda assim, nada é pior do que os bichanos.
― Ei, abaixa a cabeça Nilla!
Emergindo repentinamente da camuflagem, um louva deus descomunal agarrou a motorista pelas costas pinçando as garras anteriores no colete de proteção. Confundem o colete de kevlar com a carapaça dos escaravelhos. Pernilla dobrou o tronco num gesto ágil, sentindo zunir no ar a passagem da lança de Dárius que decepou de um só golpe a cabeçorra do inseto.
― Caracas, nem vi de onde veio esse filho da puta!
― Cê tá legal, amor? Valeu aí, Dá...
― Viram o tamanho do bruto? Então Reba, filma direito essa tua mina, tem macho na pegação dentro das moitas...
― Boa foiçada, soldado, gostei da prontidão. Pilotas, sem palavras, cês tão dirigindo muito. Tem barra de cereais aí na sacola, vamos dar uma forrada antes de seguir em frente.
Como previsto, sofreram um ataque maciço das pombas antes de atingir o topo. Três sacas de grãos de prejuízo. Antes de se atreverem a cruzar as quatro pistas que os separavam da encosta sul, por onde desceriam até o Galpão, avistaram os vultos dos carcarás nos terraços dos prédios margeando a grande avenida. Alguns gaviões cruzavam o céu a média altitude, urubus executavam suas manobras elegantes mais acima.
― Esta é a parte mais escrota do rolê...
― Não tem jeito: é ele, ou nós.
Dárius descobriu o encerado da caçamba e puxou o bicho pra fora. Ernaldo desamarrou-o e deu-lhe uma ferroada no traseiro felpudo, o filhote de coelho saiu correndo desarvorado para o meio da rua. As aves se lançaram na captura da isca viva enquanto eles atravessavam a avenida no pau. Ouviam os grasnados dos predadores na disputa furibunda descendo pelo outro lado da montanha.
― Mano, tu deu um pula-pirata no coelhinho que quase arrancou o rabo!
― Depois choro por ele, agora nós vamos ficar é bem do ligados: daqui em diante é território da gataria.
― Que porra é aquela gente? O mundo tá de ponta cabeça, ó lá!
― Fata Morgana.
― Nunca viu, Rebeca?
Bordeavam um talude do terreno quando o belvedere lhes descortinou um vasto retângulo da zona sudoeste. Efeito do calor do meio dia, a diferença de temperatura entre as massas de ar da planície e do topo criava o fenômeno óptico. A cidade como que boiava num céu impossível.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#2)


― Fica sussa, chefe, do jeito que as ruas tão, o menor dos problemas nesse bonde vou ser eu, garanto.
Entretanto, a chuva parou.
Num ponto o mercenário acertava, desde o surgimento do Leviathan m. muito havia mudado lá fora, para além dos muros lacrados dos viveiros humanos ― tínhamos perdido o território.
A cidadela caiu em toda parte, sob o impacto da catástrofe biológica, o conjunto da humanidade experimentava um retorno dramático às condições reinantes na origem da espécie: isolamento, população reduzida, escassa dominância sobre os outros animais.
Alguns milhões de pessoas foram devoradas pelos seus próprios pets antes que a nova situação religasse nas massas o pavor da natureza selvagem. A expansão sem freios da Natura naturans.
Abrem-se os portões da Colônia Cecília.
Os veículos saem rapidamente para o meio do asfalto, executam uma curva à direita em alta velocidade, acelerando no aclive suave da rua curta. Pilotando o jipe, Rebeca dá cobertura andando na frente do caminhão carregado de frutas e grãos.
― Uhu! Barra limpa, mano, a hora é essa!
― É bom começar sem vento contra, mas a viagem á longa. Difícil não ter problemas com os penosos levando tanta comida...
― Hmm, certo... até galinha virou problema. Escuta, este corre é food for drugs, não é? ― Beca não se gastava em voltas pra chegar onde queria.
Food for aid. Estamos com baixos estoques de medicação contínua, sou contra arriscar soldados nisso. Nem mesmo acho bonito gastar estoque com bagulho, por mim, só mandaria drones atrás dessas pragas.
― Ah, você sabe que aqui perto só tem mercadoria de baixa qualidade... mas não é o que falam do Galpão, lá rola o isômero D, o mais, mais.
― Sei que falam do Dr. W toda essa asneira de metanfetamina, mas comigo nunca nem me propuseram missões do tipo ― Ernaldo mentia, a verdade é que não lhe deram muita escolha.
― Pô cara, queria te dizer, mó respeito...
― Que é isso, tá me estranhando?
― Nem um pouco, mano, cê sabe que cê é uma lenda viva.
― Sai pra lá Rebeca, corta esse mimimi, não tem lenda não, só tem estar vivo. Estrela neste esporte não chega a vovô.
― Você chegou aonde ninguém chegou.
― Pode ser, mas juro, não foi me achando o rei da cocada que fiquei vivo até agora.
― E esse Dárius, hem? Não parece amar demais a própria pele, tem pinta de maluco de dar com pau em pedra...
― Por isso que resolvi não ir no carro com ele, vou dormir na mira desse cara. A conta dele não fecha.
― Se pisar na bola com a Pernilla, deixa eu finalizar ele. Trato?
Riram.
Mas a mortadela insistia em voltar à sua boca, odiava ter de mentir para os seus homens. Já não podia escolher muito, lembraram-no disso. Estava ficando velho. Tinha de engolir Dárius e tudo mais que lhe mandassem, compreendera que não ia sobreviver a uma sala fechada com a mesa cheia de papéis, não se via vinte e quatro horas por dia enredado na política da Colônia.
Os problemas começaram ao deixar as ruas secundárias, perto do entroncamento da via principal, ao sul, o asfalto quase desaparecia no primeiro trecho aberto do caminho. O off road precisou abandonar o seu posto de observação na esquina para ajudar no desatolamento.
Neste momento, ouviram os latidos vindos do fundo da avenida. Uma matilha enorme, faminta e em disparada.
Rebeca pulou na cabine, Ernaldo se trancou no cockpit traseiro, testando duas vezes a ignição do lança-chamas. Ajustou o laser. Arrancaram na direção do bando, dispunham de pouco tempo até serem alcançados e precisavam criar uma distração ― sem se deixar capturar, o que era menos evidente, já que a velocidade do carro era um nada superior à dos cães.
Poucos pilotos executavam tão bem a manobra em U: Rebeca dirigiu a toda a velocidade na direção da cachorrada, trafegando bem aberta pela direita do asfalto; a poucos metros deles, deu um cavalo de pau de trazer o café da manhã junto com os bofes pra fora. Naldo ficou de frente para um mar de focinhos arreganhados, rosnando enlouquecidamente.
― Quipariu, Rebeca, cê precisava chegar tão perto?!
― Vamo, cara, aciona logo essa porra de apito!!
Mandou um jato de chamas nos vira latas que quase encostavam na carroceria, e se virou para alcançar o Silent Dog Whistler. Rosqueou o tubo na posição três, soltou dois silvos curtos, agudíssimos, praticamente inaudíveis: pii-pii. A matilha parou de repente, como na brincadeira de estátua.
― Força Beca, pé embaixo mulher, a bobeira deles não vai demorar pra passar...
― Segura, peão, que nós vamo fritar pneu!
Refeitos do susto, os cães retomaram a perseguição. Problemão: os companheiros só agora conseguiam pôr a jamanta em marcha no atoleiro deixado pela chuva. A falange canina se dividira em duas, a maior parte perseguia-os de perto, um grupo menor dava caça ao caminhão. O lança-chamas de Dárius falhou, obrigando-o a gastar toda a sua cota de granadas nos mais próximos. Se equilibrando com dificuldade na caçamba, ele lutava no corpo a corpo, golpeando com arpões e lâminas, alvejando o laser nos olhos da canzoada.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#1)




            Além disso, era um daqueles homens que preferem observar a própria vida, julgando impertinente qualquer ambição de vivê-la. Deve-se acrescentar que Ernaldo observava seu destino pessoal da mesma maneira como os outros, mais numerosos, costumam olhar pela janela um dia de chuva.
            Pouco antes que saíssem, começou a cair uma chuva miúda. Expedição suspensa, por enquanto.
            Se tivessem lhe perguntado, Ernaldo teria respondido que a sua vida continuaria assim para sempre até o final previsivelmente abrupto.
Na certa acabaria devorado pelos bichos, ou morto por algum bando de saqueadores rivais, como, de resto, tinha visto acontecer ao longo dos anos a toda uma geração de companheiros. Perdas em ações externas, segundo o discurso oficial. Toda a sua geração. Era o mais velho, mais experiente, o chefe da operação.
            Um grupo sem novatos, Dárius, Rebeca, Pernilla, e ele. Dois em cada veículo, sem blindagem, mas equipados com canhões de grosso calibre. Sem pressa, terminaram de carregar equipamentos e víveres no caminhão: lasers, granadas, lança-chamas, mochilas de alpinismo, latas de embutidos, anfetaminas, se precisassem passar a noite fora, além de ampolas de propofol, caso fossem capturados.
            Pernilla e Rebeca são casadas, motivo pelo qual pôs a primeira para dirigir o caminhão-caçamba, e a segunda com ele na off road. Adotava esse sistema quando havia mais de um carro, se um veículo se perdesse do outro no meio da missão, a relação forte entre dois soldados sempre funcionava como estímulo adicional na hora de se decidir pelo resgate.
            Ernaldo tinha mais tempo de comando do que os outros de correria, mas não era isso que o preocupava naquela manhã. As meninas eram muito boas de serviço: firmeza, lealdade e, sobretudo, um tipo de coragem sem o tempero da estupidez. Dárius era o cabelo na sua sopa. Temerário, descuidado, conduzia-se por hábito no limite da insubordinação, fazia parte dos desperados, aqueles que entram na milícia faltos de opções e vocação.
            Perdera toda a família num ataque das feras.
            ― Naldo, nós só estamos aqui porque somos “diferentes”.
― Caramba, preferia que você estivesse decorando os caminhos alternativos no mapa, em vez de fazer filosofia...
― Bah, isso o GPS faz sozinho... tou falando dessa vida que a gente leva, dizem pra nós: “não há mais nobre profissão dentro da Colônia”, “vocês são a reserva moral da comunidade”, e por aí a fora. Puta hipocrisia...
― Bom, se você quer tanto saber, também reconheço a falsidade social, não vivo numa bolha... só que, não inventei e não gosto desse jogo, nem existe a hipótese “não-vou-jogar-nunca”, mas há coisas que são reais. Sobreviver é uma delas, meu foco tá aí.
― Certo, é bem isso que se espera de um comandante: foco, disciplina, deixar fora todo o resto...
― Numa coisa você tá certo, é uma pérola do humor negro, agora que estamos todos igualados na mesma lama, nego ficar com essas baboseiras de subespécies, raças, aptidões inatas...
― Era disso que tava falando... nós vivendo na duranga, e só se fala merda por todo lado, um monte de gente afirmando isto, negando aquilo, e vice versa, enquanto a garra aperta, o cerco se fecha à nossa volta!
― Ok, Dárius, mas, qual a alternativa? As pessoas só conseguem levar em frente se alguém estiver o tempo todo a lhes aparar as arestas do mundo com histórias da carochinha... faço o quê com isso? Agora, quando a gente entra em ação, é preciso apagar as ideologias, limpar os sentidos para se deixar guiar pelos instintos, o medo carnal. Acredito no que sinto, não no que minto.
― Hoje, quando olho pra dentro, descubro pouco medo em mim.
― Já tinha percebido. Vou ser muito direto. Isto não me agrada, não ouça como julgamento sobre você e suas motivações, só não quero minha equipe correndo riscos desnecessários.