domingo, 25 de dezembro de 2011

Noitches Paraguayas (epílogo)

Muito embora não esperassem ficar hospedados na suíte comodoro do Sheraton, sendo servidos pela Paris Hilton, ainda assim os integrantes do Noches Paraguayas não estavam preparados para aquilo. E havia ainda um problema adicional: Manolito Barros, o baixista, sofria de aracnofobia ― a coisa chegava ao ponto de não poder vê-las desenhadas: o antigo logo do Noches, que antes exibia uma lua, estrelas e uma teia com aranha, teve de ser modificado quando ele entrou na banda. Manolito berrava, em grosso calão guarani, que só aceitaria dormir naquele gabinete do dr. Moreau depois da remoção completa de todos os artrópodes e suas importunas secreções.
Raulino não deu a do braço curto, catou baldes, panos e esfregões e botou todos para dar um talento naquele tugúrio; pôs-se ele mesmo a remover, para abrir espaço aos colchonetes, umas bancadas repletas de alguidares com crânios fervidos e estantes que pareciam saídas do cenário de algum filme do Nosferatu. Das paredes pendiam os bustos de dois caribus, várias onças e jaguatiricas e um guaxinim, com aquele olhar sinistro que nos fixa em qualquer ponto; manequins de bichos de estimação, com o nome e a data de nascimento e morte gravados no pedestal, se amontoavam desordenadas no pavilhão comprido e estreito.
Mas nada se comparava ao efeito que produziam as coleções de partes de animais em vidros de conserva: potes de vários tamanhos contendo, desde sal grosso e formóis, a orelhas, caudas, genitais, membros, garras, bicos e pungentes frascos cheios de olhos. Justamente ao deslocar uma destas estantes de ferro, derrubou um dos potes que se quebrou ao cair; enquanto limpava os cacos do piso deu-se conta do conteúdo: uma única, negra e peluda, pata de macaco-prego.
Na etiqueta, que ele separou cuidadosamente dos estilhaços, estava datilografado: “Macaco-prego, Cebus apella”; colado ao verso achou um bilhete manuscrito que se desfez em suas mãos enquanto lia:

“quando este vaso
quebrar
três desejos irá
ganhar”

Com os músicos de péssimo humor, decidiu que era hora de puxar o carro dali, além do quê, não podia perder o horário do metrô. Deixou uma grana para eles comerem de manhã antes que ele viesse no dia seguinte levá-los para a passagem de som na casa de shows; deu uma gorja para o guardinha da rua e se mandou. Quando se viu na plataforma da linha turquesa da CPTM é que pensou em um desejo que gostaria de realizar ― vintão em notas, na sua mão, agora. Burunbumbum. Como um raio, passou-lhe na mente onde e com quem poderia arranjar grana para quitar seu débito com os cabeças.
O óbvio. Foi para o Caldeirão; pensou em tudo, ia direto para o escritório que ficava nos fundos da balada e falava a real para o patrão, pedindo logo um adiantamento do cachê dos músicos. Fim de ano, muita propina para pagar aos ‘pacos, o chefe devia estar com alguns pacotinhos mágicos lá no cofre. Não tinha como dar errado.
Chegou na Augusta, uma zorra do caraca, equipe de televisão, cordão de isolamento, sirenes, burburinho na porta do Caldeirão do Diabo; no meio da quizomba, encontrou o Xico Ciência e assuntou com ele para descobrir que os federais tinham estourado o ponto. Mais uma daquelas operações estilosas que aparecem no Jornal Nacional; porém diferente daquela que engaiolara Precioso, esta se chamava “Caminho das Estrelas”. Puta que pariu! Maldisse a sorte e despediu-se apressadamente do amigo. Uma última louca esperança o animava.
Chegou ao pátio comum do cortiço que lindava com os fundos do escritório da boate; até ali podia ir sem ser visto, precisava apenas esperar o espetáculo midiático retirar-se para tentar a sorte. Rezou para a Virgem de Caacupé, pediu-lhe um milagre. Tão logo os policiais, funcionários e repórteres saíram, ele entrou e foi direto ao cofre que os porcos não conheciam, mas onde ele sabia que o dono guardava drogas, uma 765 e cash. Bingo!
A sua sorte estava mesmo mudando, a combinação, como ele suspeitava há tempos, era a seqüência de números que o patrão sempre jogava na Mega Sena (como garoto de recados, ele pegara muita fila de lotérica para o famoso empresário da noite). Voltou correndo para casa. No caminho descobriu no seu celular, que tinha se desligado sozinho, mais de trinta ligações e mensagens desconexas de Aluízia. Abriu a porta.
― Aiiiiii Rau, que mataron nuestro manito, aiii... ― chorava e andava pelo apartamento como louca ― lo reventaron todo, lo reventaron Rau!!
― ¿Qué dices?... mas como, ¿quien?, mas cálmate hermana...
Ligou a TV, os plantões noticiosos mostravam um Audi esportivo amassado, a árvore arrancada com a batida e uma trouxa de panos de coloridas bandeiras amortalhando uma criança que tinha sido atropelada e morta na calçada pelo carro desgovernado. O dono do carro prestava agora momento seu depoimento na delegacia, mas, segundo o que o advogado do motorista dissera aos jornalistas, sem um flagrante devidamente registrado, dificilmente seu cliente deixaria de sair hoje mesmo sob fiança. Os colegas do menino o chamavam de “gringuinho mudo”.
― Pero, ¿es cierto que sea él?...
― Sí que es cierto, estuve lá! Aiiiii! Lo reventaron todo, a nuestro Rosi, nuestro hermanito, Rau... Aiiiii!
O rapaz tentava raciocinar, pensou em ir reclamar o corpo no IML, mas ela o lembrou de que seriam presos e deportados. Deportação, nem precisavam dizer, significaria para ambos a morte imediata nas mãos dos narcos. Não podiam fazer absolutamente nada. Então Raulino lembrou-se da estranha coincidência de ter conseguido o dinheiro depois de achar a mensagem da pata do macaco. Contou à irmã toda a história. Aluízia não titubeou:
― Bueno, si así es, quiero a mí hermano de vuelta!
Ouviram barulho nas escadas do prédio. Abriram a porta, e era o horror.
Uma massa informe e sangrenta, que talvez já tivesse sido humana, subia os degraus, arrastando-se, perdendo pedaços em cada patamar, numa ascensão difícil e deliqüescente; um monstro sem voz. Rosendo. Trancaram-se em casa, vedaram as janelas, empurraram o sofá-cama para atravancar a porta; só queriam ficar longe do sortilégio que haviam convocado. Abraçados, e às lágrimas, desejaram que tudo aquilo acabasse de uma vez.
Foram encontrados, mortos, caídos um ao lado do outro. Tal como os pais deles, um ano antes. Os bombeiros avaliaram que a morte ocorreu por asfixia causada pelo monóxido de carbono: o turíbulo de queimar ervas e incensos de Aluízia, na quitinete vedada, fora suficiente.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Noitches Paraguayas (parte 3)


Agenciar a vinda de um grupo musical do seu país para um país que não era o seu mostrou ser um pesadelo logístico para Raulino, mas lhe iluminou uma sua faceta desconhecida: sentia-se leve, espectral, como se os seus passos mal tocassem o chão, um amante da vida, amigo da coisa, do bicho e do homem; maravilhosas ondas de ternura o inundavam no meio da multidão, anjos sussurravam-lhe uma língua tão doce que todos que o ouviam acreditavam nele. Seus dias, subitamente invadidos de sonhos luminosos, proporcionavam-lhe por vezes uma alegria tão quieta que ele se isolava na escuridão para chorar, sentindo um estranho desejo de morrer. Era como se a vida lhe oferecesse um tira-gosto da sua carne mais essencial.
Ecoavam ainda em sua cabeça as palavras do amigo Xico, o rapsodo do bajo fondo, quando lhe perguntou como é que saberia se o caminho que pretendia trilhar de agora em diante era o certo. Engordurando as mãos no sangue coagulado dos rins, fígado e vísceras, e lambendo as beiças para o sarrabulho da Antônia, famosa restauratrice da baixa gastronomia paulistana, ele respondeu na lata em seu estilo taxativo e rocambolesco:
― Nego véio, esse é o quarto mistério de Fátima... sabia não?, a Virgem entregou a três pastorinhos o busílis, as respostas das grandes questões da humanidade, tipo, com Camões que Castro Alves, como se faz o Capão ficar Redondo, ou ainda, quem deixou o Tatuapé... mas o certo é que não há caminho antes da caminhada, compay, o importante é que algo em você se conecte ao mundo lá fora... porque a eficiência nasce da beleza, porque a felicidade, como a poesia, é simples, mas o difícil é ser simples... pense nesse futebol mágico do Barça: é a antropofagização dos antropófagos, harmonia, ritmo e melopéia, a forma sem norma, o morto-vivo do gato quântico, inteligência coletiva habilitando o individual criativo; o caminho, meu bróder, nasce quando a trama do desejo se liga à Matrix do mundão velho sem porteira.
O homem põe e Deus dispõe; Deus dá, Deus tira. E assim, no mesmo dia em que os músicos do Noches chegavam a São Paulo, Raulino recebia um duro golpe: um dos seus maiores clientes fora preso numa rumorosa operação da Polícia Federal. Lá estava, em todos os noticiários, executivos de um banco ligado a uma rede de televisão tinham sido pegos em fraudes contábeis e doações eleitorais para lá de suspeitas; as televisões mostravam os vídeos gravados, as conversas de celular grampeadas. Era um escândalo retumbante, figuras de proa do jet set envolvidas em intermediações nebulosas, propinas milionárias e negociatas envolvendo uma ampla gama de subcelebridades, políticos e empresários de baixo calão e grosso calibre. Mas o estrago estava feito: as acusações convergiam para o agora detido Grimaldo Laughton Precioso.
Uma merda de tamanho GG; pouco antes de ir em cana, Precioso havia encomendado a Raulino um lote de “balas”, speed, “doces” e “pó de pirlimpimpim” para uma festinha de encerramento de ano da sua corretora, agora lacrada pela PF. Resultado: com a mercadoria entregue e em paradeiro desconhecido, Raulino precisava pagar vinte mil ao trafica porque o seu cliente estava impossibilitado de mexer em qualquer centavo dos seus muitos milhões. A engrenagem da roda da fortuna girava, girava, e parecia sempre parar no mesmo lugar: os cachorros grandes brigando e ele no meio do fogo cruzado. Deram-lhe três dias.
Uma sacanagem do cacete, com tantas milhetas voando de lá pra cá em malas, malotes bancários e cuecas, Raulino estava com o fiofó na reta por pouco mais de dez mil dólares. Simplesmente não tinha de onde tirar aquela grana, menos ainda em tão curto prazo. É o cu da cobra, pensou desolado, pobre só vai pra frente quando tropeça mesmo. E lá foi ele conduzir os músicos para as suas “acomodações”: um galpão no Ipiranga cedido por um cineasta cliente seu; segundo as informações o lugar servira de oficina a um tio recém-falecido do diretor, parece que era empalhador.
Na rua do Grito, próxima à avenida das Juntas Provisórias e contíguo à favela de Heliópolis, acharam o endereço; na parte da frente ficava a produtora de cinema, seguiram para os fundos onde ficava a oficina do velho. Ergueram com dificuldade o portão de ferro corrugado, acenderam as luzes e pararam no limiar, mudos. Uma fedentina indescritível. Recheando as bancadas, mesas de dissecação, escabelos e estantes, podia-se ver uma profusão de escamas, vísceras, brânquias, barbilhões, orelhas, lábios e bordos de pele esticada; um ambiente feérico repleto de aves, répteis, anfíbios e mamíferos de pequeno porte, um zoológico estático ― Raulino se perdera na tradução, em vez de uma marcenaria de móveis de palhinha, um maldito de um laboratório de taxidermia!
Distante dali, o irmão mais novo estava sendo apresentado a um mundo novo. Os outros garotos-bandeira, recheios como ele das placas de propaganda imobiliária, levaram Rosendo para pipar crack antes de pegar no serviço; este primeiro “tum” da pedra duraria quase a tarde toda, tornando mais suportável sua jornada de menino invisível.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Noitches Paraguayas (parte 2)


Durante a noite Raulino acredita escutar o tique-taque do cérebro do irmão a funcionar; na verdade, o que ele espera é surpreender o momento do descompasso, quando a um tique segue outro tique, ou quando um taque se desdobra no seu gêmeo, introduzindo o ruído na máquina babelina do pensamento. Deve ser por isso, pensa, que o garoto assiste milhões de vezes o filme do peixinho laranja que tenta voltar para o pai, e o pai para ele ― o peixinho do desenho é rengo de uma das barbatanas. O outro assunto torturante é Aluízia, que bate ponto na Love Story; de madrugada ela se transforma na Índia Guarani, ao chegar de manhã ele junta seus ganhos miúdos do tráfico ao michê dela para as compras da casa. Todos os sonhos de Raulino se resumem a ganhar muito dinheiro para poder tirar a irmã da vida e pagar um tratamento para o caçula.
Uma das poucas vantagens de ser tido como débil mental é que as pessoas, com o passar do tempo, passam a esquecer que você está presente e falam tudo que pensam. Rosendo descobriu esta vantagem feita de teimosia, amor ao impossível, vento e cheiro de bosta de vaca. Aquele vento constante e o cheiro da bosta de vaca. Duas coisas que não existem em São Paulo, assim como várias outras, por exemplo, sendo clandestino, agora não precisa freqüentar a escola; para ajudar nas despesas, trabalha de garoto-placa dos empreendimentos imobiliários da região do Baixo Augusta. O menino ama estar nas ruas, principalmente as daquele bairro animado de tribos urbanas, baladeiros, moradores pacatos e artistas, esquisitos de todo tipo, gente flauteando ao deus-dará, parasitas vivendo de sobras, expedientes, golpes de sorte ou do descuido alheio. Quase sempre sonha com milharais ondulando ao sol, sombras de bambuais se debruçando sobre a água mole de corregozinhos onde estrila o canto melancólico das cigarras.
Aluízia não suporta mais o cozinha-quarto-sala em que moram. Às vezes contempla aquele espaço pequeno demais para três pessoas e se pergunta quando a sua vida voltará ao normal. A quitinete não é feia demais, e até seria muito boa se não fosse tão ruim; a luz acobreada se derrama de uma lanterna marroquina e o grande turíbulo tibetano-fake espalha um perfume de rosa que se mistura aos odores lancinantes do pó-de-arroz, dos boiões de creme e ungüentos do seu toucador de dama da noite. A hora de dormir, que para ela é de dia, enche-a de terror; por sorte é um momento em que os irmãos não estão em casa para ouvi-la acordar gritando de medo. O pesadelo segue um roteiro praticamente invariável, há sempre a árvore ao lado das águas do rio, pelo qual vou descendo até que surge a serpente e, depois, no céu vêem-se as ondulações de um dragão vermelho; o dragão é feito de bronze e a serpente brilhante de ouro e jade. Daí em diante, sucedem-se as visões tremendas: um boi surge das matas com um demônio de rosto canino a pular-lhe nas costas; uma multidão de mulheres belas, mas corrompidas e putrefatas, que cavalgam escorpiões-serpente; um gigante esquelético com uma cabeça de bode vem do poente; ergue-se das águas uma mulher de rosto distorcido e cambiante, sua pele esparrama-se sobre o corpo de um besouro colossal; exércitos de homens semi-formados brotam da lama com os corpos unidos a turbilhões de vermes e peixes; por fim, uma figura negra espessamente velada coberta de rodas regirantes chega com uma música diferente, feita de ruídos selvagens, rimas inesperadas, amor, água, sangue, árvores, pedras, pássaros, ventos, fogo, esperma ― então acordo, porque sei que estou diante do Inominável.

― Entãonces, macho viejo, que cara que é essa? Parece que chupou e não engoliu, cumpádi, senta aí moço e vamos dividir a breja pra móde abrir a alma ― Xico Ciência batia ponto no boteco da Antônia; jornalista e boêmio, era figurinha fácil dos inferninhos e privês da rua Augusta muito antes de ela se tornar o hype vanguardista que é hoje.
― Caray Chiquito, que me muero antes de nascer. Como me gustaría teñer mucha plata, esto de hacer el dealer y dejar los paquetes gruesos con el patrón...
― Ô Raulino, meu indinho guarango, filho que não tive nem no pampa nem no Crato, a verdade é aguda e precisa qual peixeira de baiano: tu tem mais é que largar essa vida de trafica, véi, quando o esquema da boate rodar, quem roda é o bagrinho como tu, não o peixe gordo do patrão...
― Sí que lo dices bien, pero, la señoria no acepta gazapas por pagamiento, tampoco la mercería, además, quiero sacar a mís hermanos de las ruas...
― Tens razão baguá, além do que... veja, que raparigueiro eu sou, nunca neguei, nem sou de falsos moralismos, porque não há damas que cheguem aos pés das Messalinas desta abençoada e fuleira zona, amém, mas isso de pegar menor... tô fora! Também me dói, como macho de responsa, ver tua irmã por aí... Por outro lado, bichinho, por que tu não empresarias os músicos da tua terra?
― Ay, hombre, no puedo volver a mí país, los narcos me empaketan pra regalo la horita misma que yo...
― Ah, muleke, mas pra quê ir até lá se já inventaram a internet e o celula, pochonto? Escuta, aquele antro da perdição baladeira, o Caldeirão do Diabo, vai promover um mês de free style da perifa, só música latina, entra nessa, vira empresário e vai fazendo teu nome no métier...
Desta forma começou a carreira de agente musical de Raulino e a primeira excursão em solo brasileiro do grupo “Noches Paraguayas”.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Noitches Paraguayas (parte 1)


― Carajo, carajito, carajón... qué poco dinero teneis! Hmm... ¿y que tal cargarte de plomo ahora, ahorita mismo buey?
            ― No sé que hacer más para agradarlo señor...
            ― Agradarme?! Agradarme, ¿cabrón? Soy un hombre positivo, plata en mano y culo en tierra.
            ― La piedra que es sábia, passa la vida sin hablar nada.
            ― ¿Y quien le dirigió palabra, doña? Eh, huevón, cala a tu doña sino quitole la lengua yo. Dejemos de makanadas, sabes por qué he venido: a nosotros, los Zetas, no nos gusta los kilombeos que haces en este taller klandê de mierda...
            ― Pero sigo con lo mismo business de siempre...
            ― Cálate, tavyrongo! No ves que ha cambiado todo, buey, ahora en Pedro Juan Caballero no se trabaja más por los brasileños y esto debe quedar claríssimo, a full!
            ― ¿Joder, si los traicionar, que harán ellos de mí? Y a ustedes Zedelpas que diferencia les da? Tan chiquitito soy, no comprendo...
            ― Exacto, buey, lo diciste por entero: es chico, es un lambebolas de esos chongos de Mato Grosso y no comprendes ñembo. Pero la mala-onda no viendra de ellos, nosotros te vamos a joder como ejemplo. Nada personal, cabro...
            ― Por Diós, hombre, lo haré como decís, no necesitan...
            ― Estos brasileños son unos karibokas de mierda, perdieron el orgullo de vivir en una mierda de país; no se sienten más parte del tercer Mundo como nosotros...
            ― Sin embargo siempre hicimos buenos trades, avá...
―Carajo! ¿Ni siquiera comienzas a te dar cuenta, juguetón? No hagamos sutilezas, no percibiste o no lo quisieras reconocer que los tiempos son otros: cada automóvil que llega de Ponta Porã o del culo del diablo paga a los Zetas antes de pasar a Colombia o Bolívia. Obligativo. ¿Está claro?
            ― Sí, sí, de acuerdo... solo que yo...
            ― Solo que todavía hay huevones como tu que siguen manteniendo acuerdos con los babakuaras. De hecho las personas necesitan ser movidas por medio de la aceleración, del miedo y de la conectividad. Así que es fundamental chasquear la mídia, que nadie pase por alto lo que está por vos suceder...
            ― ¿Pero qué haceis?... No, no, ¿por qué la sierra?! Déjela, caridad señor!
            ― Es terrible la realidad, el pueblo vive em la más absoluta ignorancia. Claro está que necesitamos enseñarle unas cositas... ahora, por ejemplo, vamos a cortar tu mano y la de tu mujer... primero las damas, por supuesto...
            ― Nooo, qué... Aaaaaaiiiieee... AAAAAAAAAA...
            ― ¿Qué tipo de monstruo asesino eres? Mátela, acorte su sufrimiento le ruego...
            ― Chicos, que suciedad la sangre de esta galina... bueno, asierren com cuidado... eso... después al cretino... eh, pelotudo, decime: ¿donde están tus hijos? Tienes tres membiras, ¿verdad?, a los hombres voy desuñarlos pero a la yiyi... me han dicho que es una guapísima quinceanera... a ella yo mismo voy a kafishear.
            ― Aaah... se... se fuerán a Asunción... Aaaiii, no les moleste, por favor... Uaaaahh...
            No dia seguinte os corpos foram descobertos numa parte descampada do Calejón Mafussi em Pedro Juan Caballero, Paraguai. As mãos direitas de ambos tinham sido cortadas, marido e mulher tinham sido amarrados à roda de uma camionete de luxo roubada no Brasil. Lupe e Paco mantinham uma pequena oficina, um desmanche clandestino ligado aos grupos brasileiros de roubo de veículos. O recado para a população não podia ser mais claro, embora as manchetes da imprensa local fingissem ignorar as ações cada vez mais ultrajantes e espetaculares dos autointitulados Zedelpas, os Zetas do Paraguay.
Inspirados na estrutura ‘familiar’ e na postura intimidatória de desafio aberto às autoridades dos congêneres mexicanos, o clã paraguaio cada vez mais crescia em importância neste segmento, apoiando-se num cada vez mais forte ressentimento local com a influência dos ‘brasiguaios’. Os três filhos do casal sobreviveram à tragédia, Raulino, de vinte anos, e Aluízia, de quinze, efetivamente estavam em Assunção e escaparam do massacre; o mais novo, Rosendo, de doze anos, ouviu tudo de dentro do porão da oficina onde os pais o haviam trancado quando perceberam a chegada dos matadores. O menino nunca mais voltou a falar.
Com a ajuda de uma tia, conseguiram atravessar a fronteira e fugir para o Brasil. Instalaram-se em São Paulo.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Poranduba (parte final)

Instalada no brega, Joana, também apelidada a Caninana, ganhou o respeito e a consideração das outras marafonas ― em pouco tempo tornou-se uma vedete, a ‘prinspa’ do puteiro ―, logrando chamar a atenção dos maiorais e mandachuvas da política local. E assim foi que Joana, que já fora Maria, entrou na vida do senador Tucuxi. A modo de dizer, caiu-lhe no goto, em pouco tempo o senador não procurava outra que não fosse ela, e no bordel vale o ditado nortista: quem não vareia, viceia.
Muito quis o tribuno parauara tirá-la da vida, mas não houve meio ou razão que a convencesse; embora tenha consentido que o bebê fosse criado na família dele. Ironia das ironias: o famigerado Tucuxi, femeeiro incorrigível, putanheiro de quatro costados, que havia filhado, dizia-se, um cento de mulheres, não tinha filhos legítimos ― a esposa de direito era maninha. Joana ajuizou que melhor seria o menino criado em casa de família do que em meretrício, além do mais, não ajuda a um cabra descobrir um belo dia que é um belo de um filho da puta.
Vá a gente entender as voltas que a vida dá, e junto com elas, as que dá o coração.
Honorato entregou-se à embriaguez selvagem do catimbó, desiludido do poder do Altíssimo. Passou a freqüentar um terreiro todas as noites, trocou o incenso pelo aroma enjoativo da liamba e os hinos sacros pela música dos miritis sob o olhar fixo da coruja empoleirada no jupatizeiro; presenciava entorpecido os ritos, os passes e o aviamento das receitas infernais: banha de urubu, purgante de mamona, azeite-doce, tripa de paca, uma colher de chifre de veado moído, noz-moscada, clara de ovo e café torrado sem açúcar. Armava a rede junto do tabocal para esperar os sonhos em que a banha de urubu se misturava com a liamba e a música, os cabelos e os seios espocados de Maria; pesadelos dos quais sempre acordava gritando como se estivesse a se afogar no rio.
Até que conheceu o alferes. Estava ele uma feita nas águas do grande Tocantins, quando chegou à cidade de Cametá; tendo passado a noite com o soldado, fez-lhe o costumeiro pedido. O miliciano não recuou, foi à beira do rio, achou o monstro e procedeu como mandado: deitou-lhe leite na boca, desceu-lhe o cutelo até sangrar e... Honorato desencantou. Por amor e gratidão ao alferes de Cametá, ele sentou praça no corpo policial do Pará e entrou a servir sob nova farda ao novo chamamento da vocação.

Norato e o alferes se tornaram unha e carne, corda e caçamba. Certo dia o batalhão em que serviam foi convocado a Santarém; cumprida a missão, o comandante achou por bem soltar o freio da guarnição e concedeu-lhes folga. Logo alguém sugeriu que fossem putear (poucas coisas animam mais a soldadesca) e, antes de um piscar de olhos, estavam todos no bairro de Jaderlândia na maior farra. E, como a sorte é cega e quando bate, prega, a Honorato coube a Caninana.
Ela soube logo quem tinha pela frente, ele sentiu-se incomodado, mas não atinava com quê. Joana despiu-se com fingido profissionalismo, Norato foi tirando os coturnos lentamente, o ar encafifado, sorumbático.
― Que diacho de marca é essa em tuas costas?
― Nada não, é a inicial do meu homem...
― Ele não liga que tu seja... quer dizer, trabalhe aqui?...
― Ah, não, faz tempo que ele deixou isso pra lá... agora soldado, vou colocar em você o uniforme desta caserna: a camisinha...
Pegou-a por trás e começou o nheco-nheco, prestes a gozar, arrancou o preservativo e ejaculou na direção da tatuagem gritando:
― Esta é a minha homenagem ao teu homem, vagabunda!
Não voltariam a se encontrar.

O menino, filho de ambos, cresceu, fez carreira apadrinhado pelo senador Tucuxi e se tornou um nome importante na vida pública daquela região imensa, rica e sem lei. A tal ponto afluente e influente ficou, que hoje é um dos que advogam a divisão do estado do Pará em três novas unidades da federação: brevemente um plebiscito decidirá se teremos os estados de Tapajós, Pará e Carajás.
Com ou sem razão, dizem os parauaras: a divisão do Grão-Pará é como a carne da pá, que não é boa nem má; mas, se o filho do Cobra-Norato envolvido está, coisa turva ou marosca aí há!
Há de o raro leitor me desculpar por narrar este derradeiro milagre sem declinar o nome do santo (!?), mas é que no país da boiúna, e em rio onde há piranha, o jacaré nada de costas...


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Poranduba (parte 2)


Ela tinha ouvido bem: homem. Honorato não domara sob a batina o homem agreste que sempre tinha sido; irmã Maria haveria de o descobrir com o passar das cheias e vazantes: a colaboração entre ambos foi se estreitando, o cântaro que tantas vezes foi à fonte acabou por perder a asa e o que tinha de ser acabou sendo. Aliás, na imensa planície amazônica, devastada por extensas plantações de soja, coberta de tabuleiros e frondosas matas, ilhadas entre pastos descampados sem fim, cortada por rios, igarapés e várzeas, onde abundam a quina, a piranhuba, a salsa, o pau-rosa e a maçaranduba, em cujos lagos e lagoas estendem-se alvos garçais, esta é a regra de ouro: o que tem de ser, é.
― Maria, antes de o galo cantar, levante e vá até a beira do rio, lá vosmecê vai achar o corpo de uma sucuri; não arreceie, deite-lhe um pouco de leite na boca e, então, dê-lhe uma boa cutilada no flanco para arrancar sangue do bicho.
― Virgem Santíssima, mas que despropósito é esse, Norato?...
― Faça como lhe disse e não tenha cagaço, que amanhã virei ter contigo liberto desta maldição que tanto me aflige.
― E nunca me falou disso por quê, não lhe confiei meu coração se reservas?
Àquela altura, ambos viviam o que os caboclos chamam de ‘casamento verde’, uma relação natural e pecaminosa que já durava um ano, e Maria, por mais tratos que desse à bola, não encontrava uma maneira de dizer-lhe que estava ‘filhada’ dele. E agora essa.
Madrugadinha lá foi ela, se embolando nas quiçaças, arrastando a custo as alpercatas e encharcando as pernas até às canelas no igapó. O lamaçal encontrava-se revolvido, com um sulco bem cravado no meio, rumo da beira ― o monstro devia ter arrastado algum barrasco para dentro das águas, a lama do tijuco fedia a pitiú de cobra. Jiboiando na enseada da praia, lá estava o bicharoco medonho com a cabeça bem iluminada pela noite de lua crescente.
Maria quedou-se estática, a cobra parecia como que morta, mas naquele momento desceu o quiriri; o terrível silêncio noturno, a hora morta em que a floresta se enche de misteriosos ruídos surdos e até o coração do mais valente sertanejo esmorece. Apavorada, ela ganhou as bredas, correu, correu, correu até o fim do mundo, e nunca mais voltou.
Em vão procuraram por ela, Honorato não economizou ajuda de caçador, garimpeiro ou barqueiro, vasculharam-se capoeiras, lagos, matagais e ilhas, peraus e paranás; nunca mais ninguém viu ou ouviu falar de irmã Maria Auxiliadora do Coração de Jesus.
Meses depois destes acontecimentos, chegava na zona de Santarém mais uma rapariga da vida com um filho a tiracolo, a noviça Joana; vestida sempre de preto, atraía uma boa clientela que não se cansava de lhe perguntar sobre um enigmático ‘H’ tatuado no cóccix. Cada um obtinha dela uma resposta diferente.

domingo, 27 de novembro de 2011

Poranduba (parte 1)


“Catequizar o gentio, mui nobre entre as mais tarefas do vero cristão”, assim pregava o sermonário do Padre Vieira, gigante da inculta e bela língua. E assim obravam o padre Honorato e a irmã Maria, a Caninana; ele, nas escolas cristãs dos Agostinianos Recoletos, ela, irmã franciscana das Missionárias de Maria; um, professor de artes e ofícios, a outra, auxiliadora de doentes.
Ocorre, porém, que Deus não é Tupã e, nas brenhas do Alto Solimões, ‘assucedem’ histórias que não lembrariam ao próprio Sete-Peles. Quem duvidar que visite a igreja de Nossa Senhora de Santa Ana em Óbidos, onde uma ‘timive’ cobra-grande jaz enterrada; a cauda oculta-se nas barrancas do rio e a cabeça bem debaixo do altar, de onde sai uma rachadura no chão que se estende até ao mercado da referida cidade.
Reza a lenda dos tapuios que, no tempo em que os homens privavam com as feras, e, como elas, viviam de caruru e capim, quiseram Sol e Lua se casar; mas a tanto não chegaram, pois acabaria o mundo. As lágrimas negras que verteu Jacy, a esposa que não foi, correram por cima da terra em direção ao mar, dando origem ao nosso Amazonas ― tão justamente chamado Rio-Mar.
Em nossa história, ao contrário, Irmão Sol e Irmã Lua se uniram.
E tudo aconteceu, como tudo por aqui acontece, vizinho ao rio, num casebre de taipa coberto de palha de ubim. Unidos pela lei da natureza, que os fez feliz com pouco em meio ao muito que os cercava; exuberante, a floresta envolvia a palhoça como quem quer abraçar e tem receio: na rama da maniva balançavam curiós, touceiras de mamorana rumorejavam à beira d’água e o tucauã cantava anunciando coisa boa. Mas, devagar com o andor, não nos adiantemos aos fatos.
Houve naqueles tempos uma epidemia de possessão; irmã Maria viu-se deslocada de seu posto em Itacoatiara para São Gabriel da Cachoeira. A enfermaria do posto de saúde, que do chão, às paredes e ao teto era feito de folhas de palmeira, encontrava-se lotada de índias jovens. Vindo das redes grosseiras de tucum trançado, ouviam-se gritos espaçados, repetidos a intervalos regulares: Acauã! Acauã! As três sílabas perfeitamente escandidas: A-cau-ã!
Entre a família dos falcões, o acauã brilha por ser um caçador de cobras, as quais caça em dupla: quando avista sua caça predileta, solta o guincho terrível: A-cau-ã! Logo acorre outro de sua espécie e põem-se a atacar a serpente; esta, contra-ataca os agressores, que se defendem dos botes usando as asas como escudo. Ao fim de longa refrega, a cobra cai exausta e é devorada. Para as índias virgens o grito da ave de rapina é nefasto, bastando ouvi-lo para caírem em estranha letargia entrecortada por pios semelhantes ao do bicho e convulsões.
O mal é sério e contagia: outras mulheres da tribo caem em seqüência, vítimas do misterioso mal transmitido pelo canto da ave. No entanto, não é assim que pensam os religiosos missionários; enxergando em tudo isso a maliciosa sugestão do pajé, em cuja atividade percebem as sementes da devassidão e da idolatria pagã. Alguma razão têm, porque, muitas das vezes, todo o ‘tratamento’ do feiticeiro consiste de cantilenas, fumigação e a velha e boa conjunção carnal.
Padre Honorato e irmã Maria não mediram esforços para combater a superstição na qual se baseava o poder do (para eles) falso sacerdote; moveram céus e terra, ameaçaram os aborígenes com as sete pragas do Egito, mas o que definitivamente decidiu a questão foi o apoio, negociado secretamente pelo cura, dos comerciantes locais. Eles simplesmente chantagearam a indiarada dizendo que ou expulsavam o velho pajé, ou não lhes venderiam mais cachaça.
Tiro certo.
O pajé precisou deixar às pressas a comunidade. Não sem antes lançar um poderoso feitiço nos dois religiosos.
― Padre, o senhor não teme que ele se vingue?...
― Qual, irmã, e eu lá sou homem de ter medo de tangolomangolo, balaco-baco?
― Hum, homem o senhor disse?
― Por favor, pare de me tratar por senhor...

domingo, 20 de novembro de 2011

obrigada eu, (parte final)


Meti a louca. Já que não tinha mais nada a perder, resolvi ir além do que ele me pedia; estava disposta a entregar tudo, até o que não precisava. Só queria sair viva daquela pua e, se possível, com a minha pele intacta. Acho que fiquei tão transtornada naquele momento que o ladrão se acalmou por comparação.
Peguei as minhas malas Silver Integral, as mais mais: leves, resistentes e metalizadas; fui pondo dentro jóias, objetos de valor (alguns ele nem desconfiava), laptops e, finalmente, chegamos à entrada da caverna do Ali Babá.
“Espera um pouco, a senha do cofre está aí no Ipad, é, aí, nesse arquivo... swordfish, vai lendo pra mim...”, entramos com a seqüência de números e pude ver os olhos dele desenvesgando por um breve segundo.
Não era para menos: lá dentro, remanescentes da partilha, havia maços de dólares, euros, reais e a jóia da coroa... barras de ouro puro. Vinte e quatro quilates, pureza 999, cem gramas cada lingote ― o bandido agora parecia uma criança vendo o trenó do Papai Noel descendo na porta da sua casa.
“Deixa comigo dona, olha isso!...”, ele ficou, pela primeira vez, de costas para mim enquanto carregava as malas. Afastei-me ― sei o quanto a idéia é ridícula ― para não correr o risco de que ouvisse o meu pensamento. Àquela altura já tinha perdido toda a capacidade de resistir, ou mesmo partir para o ataque; aceitei resignada, rezando para que não me matasse na saída por ter lhe visto o rosto.
“Vou fechar o capô do carro, tó: o controle do portão e as chaves...”, achei que tudo acabava ali, mas me enganei mais uma vez; restava ainda uma última humilhação.
“Então tia, vou te amarrar e passar uma fita isolante na sua boca. Não posso sair daqui com você gritando na minha cola, certo? Viu só?, colaborando, não pega nada pro teu lado... obrigado por tudo.”
“Obrigada eu.”
E se foi, levando a Mercedes. Fiquei trancada no escritório talvez uns quarenta minutos, até ouvir a campainha tocar. Tocou, tocou e nada. Os meus grunhidos não chegavam até à porta, era inútil. Preparei-me para passar umas horas naquela posição incômoda, com as cordas de varal machucando meus pulsos e pernas. Então ouvi a porta se abrindo.
Valha-me São Judas Tadeu, a Zefa! Escutei-a andando pela casa, chamando por mim; devia estar achando esquisita a bagunça que via, as coisas quebradas pelo chão da sala. Até que me ouviu ganindo e chutando a parede do escritório e veio me soltar.
“Virgem santa! Que é que aconteceu aqui, machucaram a senhora?”
“Ai Zefa, foi Deus que te enviou!”
“Pois é, quando cheguei na estação de trem é que vi que não tinha devolvido a minha cópia da chave para a senhora e resolvi voltar.”
Tomei dois tarja-preta da minha farmacinha caseira e ligamos para a polícia. Pouco antes dos investigadores chegarem, assistíamos a um desses programas televisivos de notícias mundo-cão quando o locutor, exultante, começou a gritar com a notícia ao vivo:
“Comandante Hamilton, dá um rasante pra gente ver melhor... tá lá, o carro importado, roubado... o acidente foi feio, há relatos de que o motorista morreu na hora, daqui podemos ver a equipe do CET, o resgate chegando, o SAMU... a informação que nos chega é que se tratava de um assaltante de residências, chamado Djeimes Din Maciel... dá uma olhada, gente, não sobrou nada do carro, petê, um arregaço...  o marginal já era, esse não faz falta nenhuma, um a menos!”
Nessas horas a gente percebe o quanto vale gastar um pouco mais numa boa mala: ultra-resistente, alumínio e policarbonato. A merça tava no seguro mesmo... pobre moço, nem reparou que o pedal do freio estava baixo demais; acho que esqueceu o que eu tinha lhe dito sobre sangrar o burrinho. Não acredito que ninguém vá se preocupar em verificar vazamentos no cilindro-mestre. Preciso ser justa, Teteu, até que aprendi algumas coisas úteis com você.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

obrigada eu, (parte 2)


As coisas foram acontecendo em seqüência aproximadamente na mesma época: a morte da Nita, a cachorra-quase-filha, o Teteu anunciou que ia sair de casa e eu descobri que estava com diabetes tipo dois. Perdas em série, embora nem todas negativas, por exemplo, depois que comecei a tomar a metformina dei uma secada impressionante. O problema: depois de uma certa idade, até mesmo perder peso fica complicado. Na terra das mulheres-fruta e do biquíni-etiqueta, não ‘orna’ muito ser a tiazinha ameixa-seca... virado o cabo da Boa Esperança, até mesmo um assaltante pode destruir o que te resta de autoestima sem puxar o gatilho.
“Que la merda, tia, só tem bagulho light nesta cozinha?”
“É que fiquei doente...”
“Tô ligado qual que é, minha mãe também se acabou quando o vagabundo do meu pai picou a mula com outra...”
“Homens... quer dizer, espero que você não se ofenda...”
“Que nada, dona, negar pra quê?, é a real, eu mesmo pego várias lá na minha quebrada... e acha que fico escondendo?... Seguinte, agora vamo trampar, primeiro, me leva no computador das câmeras de segurança... já vai passando celular e nextel, isso, depois vamos cortar o alarme e o fixo, belezinha?”
Enquanto fazíamos uma espécie de tour guiado pela casa atendendo a tudo que ele ia pedindo, cometi o erro mais grave de todos. Justo quando a minha moral com ele estava no ponto mais alto.
“Bom, estamos indo bem, senhora, cadê dólar, jóias... o cofre?”
Tinha acabado de encontrar a minha bolsa perdida entre as almofadas do sofá da sala, abri-a, tirei de lá duzentos reais que estavam na carteira.
“Toma, leva isto, é tudo que tenho aqui hoje. Pega o carro também, é uma Mercedes 91 mas vale uma boa...”
Uma prateleira caiu de uma só vez no chão; eram muranos, porcelanas, cerâmicas, cristais, biscuits, peças de família, lembranças de viagem, que o rapaz derrubou furioso e agora esmigalhava os pedaços caminhando sobre eles, ao mesmo tempo em que me esculachava aos berros e me enfiava o cano da automática nas narinas. Os cacos faziam um barulhinho insuportável comprimidos entre as solas altas dos tênis de corrida importados dele e o assoalho; e, como para sublinhar o que dizia, ia e vinha, ia e vinha, esmagando-os em pedaços cada vez menores. Confusa, aterrorizada, humilhada por ter cometido um erro tão primário, por ter sucumbido à ilusão de achar uma saída rápida e fácil para aquilo, levei uns dois minutos para entender o que ele urrava junto aos meus ouvidos.
“Tá me tirando de mané, sua loque do caralho?! Tá se achando, é, sua puta velha?”, esquadrinhava o ambiente como uma fera na jaula, saiu pela casa afora ensandecido em busca de algo, agora entrava e saía dos cômodos já sem se preocupar diretamente comigo.
Repentinamente, sentia um cansaço em todos os cantos do corpo, um cansaço do tamanho da vida toda. Emudeci. Não conseguia sequer pedir-lhe desculpas, argumentar o que quer que fosse; onde me deixou na sala, ali fiquei, paralisada em pé como se estivesse pregada à parede ou suspensa por fios invisíveis.
“Agora, quero ver tu ficar de rosca comigo, madame, tua chapa vai esquentar!”, trazia um litro de álcool na mão, que deve ter achado na churrasqueira (outro souvenir do Teteu; thanks darling, sempre posso contar com você para terminar de me fuder).
Despejou todo o álcool sobre mim. Acendeu um cigarro.
“Vamos repetir a pergunta que vale um milhão: onde está o cofre? Burguês como você, madame, sempre tem; não vai achando que os outro é burro só porque não estudou...”, falava e, ao mesmo tempo, soltava baforadas na minha cara que me lembravam do cigarro que segurava com a mão livre.
A imagem que se formou na minha mente foi a de um trolho de bosta untado de querosene ― o resumo da ópera ―; uma síntese da minha situação, mas também a daquela vizinhança chique irmã das favelas do entorno e, como elas, sem saneamento básico; um bairro cravejado de condomínios de ‘altíssimo padrão’ com fossas sépticas a contaminar os lençóis subterrâneos, de empreendimentos imobiliários que despejam sem tratamento a sua merda no rio Pinheiros; uma cidade desregulada cujos rios e córregos não passam do mesmo esgoto a céu aberto a unir perifas e zonas ‘diferenciadas’. Um maravilhoso edifício social a rolar bosta para todos os lados!
“Moço, pelo amor que você tem a Deus, não faz nada comigo. Te levo agora, te levo já, você pega tudo que quiser, mas não me queima...”, eu não conseguia deixar de pensar que aquele moço balançando uma arma na minha cara podia muito bem ser filho de alguma empregada doméstica da rua onde moro.
Foi aí que me lembrei de que lado eu estava desse balcão.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

obrigada eu, (parte 1)


No começo as pessoas me telefonavam para ter certeza de que eu não estava deprimida demais, sozinha demais, comendo de menos, bebendo demais, ou de luto, estranhamente alegre, alheia ou confusa além da conta. (Claro que tudo isso acontecia e ainda acontece mas resisto reclamando só um pouco, ciente do quanto me seria prejudicial ter os amigos e amigas muito perto ou muito longe numa hora destas.) Então é assim, levar um pé na bunda do marido aos cinqüenta. Não se fala na lata, está implícito: cinqüentinha na carcaça e o papo muda, ninguém mais diz que você tem a vida pela frente; finito, caput, já elvis, todos sabem que as portas do tal de ‘mercado’ se fecham.
Abri a porta para a empregada sair pela última vez depois de doze anos; acabávamos de fechar o acordo de demissão, paguei de uma só vez o proporcional de férias, décimo terceiro e o FGTS. Tudo certo e assinado. Precisei de um bom tempo de separação para perceber que a casa doravante seria um enorme trambolho para administrar e que, entranhado em cada canto, cada objeto, haveria uma mistura doída de presença e ausência dele. Teteu, seu estropício, precisava ser tão clichê e me trocar por uma mulher dez vezes mais gostosa e vinte anos mais nova?
“Você fica com a casa, a chácara em Itu e trinta por cento de pro labore até eu conseguir comprar a sua parte na empresa...”
“E você fica com a Bugatti e a vadia do marketing, né, impiastro?!...”, rugi feito leoa mas aceitei feito gatinha mansa todas as condições razoáveis do cagalhão do meu ‘ex’; hoje, ganho para não ir trabalhar. Não tivemos filhos, as famílias não se dão, os amigos se dividiram salomonicamente; não temos mais porque nos encontrar.
No passepartout da sala estamos os dois abraçados, com montanhas brancas e a estação de esqui ao fundo; na dura realidade atual o desgraçado tem circulado com a Vesga por todos os restaurantes e casas noturnas em que pode encontrar conhecidos nesta cidade. Curioso como me peguei com essa característica dela, a vesguice, como se um pequeno defeito me servisse de alívio para as muitas, e óbvias, vantagens que a piriguete leva sobre mim. Acho mesmo que me iludi com o zarolhismo dela, no fim, a falsa-sonsa catou a sardinha, a frigideira e o gato.
Coincidência: este moço que encontrei na garagem de casa também é estrábico. Pardo, jovem, tênis, calça jeans e blusa com capuz.
Ele simplesmente entrou pela porta da frente aberta sem que o tivesse visto enquanto me despedia da Zefa ― aliás, é incrível que ninguém tenha se apercebido da presença dele numa rua curta de um bairro residencial com escolta motorizada. Bairro nobre do lado de favela, mulher morando sozinha num casarão deste tamanho; os amigos bem que tentaram fazer a minha cabeça antes. Por sorte, parecia calmo.
“Ô tia, tem água pra mim?”, um volume sob a blusa que coçava sem revelar o conteúdo.
“Ali na cozinha, te levo. Por aqui.”
“E os cachorros?”
“Era um só, morreu faz um ano. Sobraram três gatos.”
“Tá sozinha?”
“Tou. E você?”, me arrependi imediatamente quando os nossos olhares se encontraram; saquei que ainda não estava autorizada a fazer perguntas, as regras iam se estabelecendo sem palavras e numa velocidade acelerada em relação aos padrões normais. Sentia uma lucidez e uma tranqüilidade vertiginosas, que não me abandonaram mesmo quando puxou a arma para fora.
“Ei, onde tá indo madame?”
“Te dar de beber. Tem refri na geladeira...”, tive de correr o risco para trazê-lo de volta.
“Tá... mas não faz nada sem me avisar, certo?”, sentou-se na cadeira que puxei para ele.
Ia me sentar também; parei, horrorizada, a meio do movimento. No estofamento da cadeira onde estivera há poucos minutos havia duas marcas fundas. Bem vinda à sua nova pessoa, querida, agora você senta com dois fêmures e um cóccix praticamente despidos daquela carne que antes se chamava bunda. Só que tinha bem mais com que me preocupar naquele momento.
“Onde tá seu marido, dona?”
“Não tenho mais, ele se mandou com outra.”
“Tá me tirando? E quem é que tá mexendo na merça da garagem, seu filho?”
“Não tivemos filhos. Aprendi a consertar de tanto que ele gostava, era colecionador de carros...”
“Carro velho, né tia? Mas, belê, vou sair fora nele quando acabar. Tá andando?”
“Sim. Você só me deixa dar uma sangrada no burrinho antes de sair, acabei de trocar as pastilhas do freio...”
“Caraco, olha a mina, e não é que tu entende mesmo desta porra? Aí, então nóis tá sozinhão de tudo numa puta de uma casa monstro?”
Houve uma mudança na voz dele ― uma rachadura, algo como um ator de televisão imitando o sotaque dos pobres. Sob a luz da janela da cozinha via que ele não era tão moço assim; só havia reparado no corpo magro, o rosto escuro contra o clarão da manhã. Um choque de frio negro me subiu do pé da coluna em direção à nuca. Era verdade, ele podia fazer o que quisesse comigo. Até aquele momento tinha conseguido manter esta informação fora dos meus cálculos da situação. Gozado como a gente consegue se enganar.
“Êee... aí tia, tá suave, sem nóia, não tô a fim de te comer, não... você é velha, se ainda fosse bonita e eu sentisse um pouco de... tipo, então, fica tranqüila.”
“Eu estou, mas obrigado por me dizer.”

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

questão

por que insisti naquela porta
se não havia lá nada
que já não estivesse
fechado

outra tantas mais batalhas
se todas as guerras são a mesma guerra
perdida

ir embora nova terra novo mar
se nenhum navio me leva onde já não tenha
chegado

se a cidade seguirá atrás de mim
com as mesmas ruas que cruzam
as mesmas esquinas

os mesmos subúrbios insensatos
a desembocar nas praças baldias de sempre
por que não há outra terra

outro mar
nem outra casa nem será possível criar
um outro lugar

apenas a velha armadilha
do ideograma chinês
(eu)
?

domingo, 23 de outubro de 2011

Plataforma Replicante

                                                                             

              

Linha amarela
Plataforma da estação Futuro
No vagão, forte tenção
E por um acaso uma punk replicante
Ligada no
fone de ouvido dançando
Um trilho em outra direção
Lagrimas na chuva
A cidade, o cidadão
Um vagão
chegando pro mundo.

www.youtube.com/watch?v=C9KAqhbIZ7o&feature=related



                                          f.maynart

sábado, 22 de outubro de 2011

Lançamento #2 Revista Lowcultura

Rimbaud era zagueiro de várzea na Vila Manchester

eu sou o pirata
da cara-de-pau
eu vendo sujeitos
à razão social

consumo doses diárias
de autoajuda
o photoshop
da alma

pratico yoga pilates tai chi
maharishi moxabustão
apóio causas perdidas
como a dos ba’hái
e o Curdistão

aprendi com os autoreverses
davida
que maçã prende
mamão solta
branco engorda
preto emagrece
e que a rapadura é doce
mas não é mole
não

(por isso my brother Charles
mesmo sabendo que é abuso
antes de ir
agito e uso)

e eu o barco bêbado
dos bailões do patropi
cabra da peste
a leste
de Bucareste
tive o estalo de Vieira
o insight de Jobs
no Buena Vista Social Club da vida é Wim Wenders
... e aprendenders

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

a cidade dos vidros


o bulbo branco no teto brilha
um instante e se dissolve
como uma pastilha de sal de frutas
no copo da escuridão


desperto
caindo de guarda-chuva
na zona verde
da manhã


como se mergulhasse numa
floresta
rumo ao imenso
sistema das raízes


ou como se o mar fosse fundo
espelho voltado
para a lonjura do céu
um muro horizontal


o lago de mármore janela
aberta para o centro
da terra
o que é ser rio e correr?


cada pessoa é uma porta
entreaberta
para um mundo
onde há lugar para todos


mariposas loucas de verão
são pequenos telegramas
pálidos
que a noite envia


passeio pela avenida neonazi
skinheads por detrás das nuvens
uma chuva fininha pura
como agulhas de vidro


tudo que está vazio
volta sua face para mim
e murmura não estou vazio
apenas espero


na noite estrelada
dos meninos de rua
o último a dormir
apaga a lua

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

o pintinho amarelinho


            Pois é. Já tive a cor amarelinha, a silhueta roliça e felpuda, o ar carente de bicho de pelúcia que conquista instantaneamente o coração de adultos e crianças. Imagino às vezes que ainda sou uma daquelas bolinhas de vida piante ― como as que vocês ganham em quermesses ou compram nas feiras ―, parecendo uma gema de ovo com pés, asas, olhos e bico.

            Houve um tempo em que eu era um pintinho amarelinho e a minha vida era simples e feliz andando em volta da mamãe com os meus irmãos e irmãs. Naquela época dormíamos todos bem juntos e quentinhos, exaustos de tanto brincar e empanturrados da ração que os ajudantes de Deus jogavam do céu. Sinto muitas saudades da infância, quando havia dias e noites.

            Tá certo, nem tudo foi flores, cansei de tomar na cacunda dos irmãos maiores quando me atirava sobre o farelo de milho que aparecia magicamente no chão. Havia uma ordem nas bicadas, e ela tinha de ser respeitada; os mais velhos nunca esqueciam de me lembrar disso. Apesar, e talvez por causa, das brigas, a hierarquia de então me parecia não só natural como a única possível. Crescer é que tem sido traumático.

            Mas isso foi há muito tempo. Ou não, é difícil lhes dizer exatamente, tenho a memória muito curta, além disso, o meu cérebro de galinha não permite raciocínios longos sem que os meus escassos miolos comecem a doer horrivelmente. Ainda assim, enquanto me tornava um robusto frango de crista vermelha e penas brancas, aprendi algumas coisas por observação. Por exemplo, recolhi sérios indícios de que a Indesejada vai me pegar antes dos vinte dias de idade.

            Os instintos me mantêm sempre alerta para o perigo ancestral que vem de cima na forma de duas grandes asas, porém, o que realmente sucedeu foi que, um belo dia, os alimentadores ― que supus serem anjos! ― entraram no nosso cercado, cataram a mim e aos meus irmãos pelo pescoço, e depois nos jogaram em um caixote escuro cheio de outros jovens aterrorizados berrando por suas mães. Terminava ali a parte feliz das nossas vidas.

            Girando o pescoço, para onde quer que olhe neste galpão superaquecido em que a luz artificial nunca se apaga, vejo a mesma cena estendida ao infinito: milhares e milhares de gaiolas enfileiradas. Em cada cela individual há serragem, um bebedouro, um cocho e uma barra de alumínio a toda a volta da gaiola que impede os desesperados de se machucar contra as grades. Entre uma fileira e outra, no teto, ficam as nórias, trilhos por onde somos transportados suspensos pelas patas.

            Só se entra ou sai daqui de ponta cabeça.

            Não há muita distração neste lugar. Um zumbido, que a princípio não pareceu tão incômodo, tem deixado os meus nervos exaustos; isto, somado à falta de sono e aos hormônios da comida, ofertada constantemente, me faz viver em um estado misto de cansaço, superexcitação e bulimia. Venho sentindo muita necessidade de sexo, o que na minha situação é um problema, pois o órgão sexual fica embutido; como tive as asas cortadas e o bico serrado logo que cheguei, não dá nem para dar uma catucada no bichinho. Como queria ser um marreco nessa hora!

            Um colega da gaiola ao lado, que dizia ter sido levado por engano a um abatedouro quando criança, contou-me sobre as coisas horríveis que lá se passam. Eram histórias tremendas sobre cabeças mergulhadas na água salgada, correntes elétricas paralisantes, sangrias em vivos, eviscerações e medonhas depenadeiras automáticas. Ainda bem que sumiram com ele, aquilo me fazia mal. Dois episódios posteriores, no entanto, acabaram de vez com as minhas convicções.

            Hoje me encontro entregue à amargura: deixei de acreditar que tudo que estou passando faz sentido, que um dia o castigo acaba e estou livre para andar por um amplo terreiro, onde frangas de ancas largas me facilitam a montada e posso finalmente afogar o ganso. Deus se mantém distante deste mundo de pesadelo, e aqueles a quem julgava servos dos Seus desígnios bondosos, vejo agora como demônios cuja língua articulada e violência sem limites me dão calafrios.

            Os galináceos enxergamos muito bem (disso depende a sobrevivência), o que nos dá acesso até aos minúsculos dramas da vida dos insetos. Faz muito tempo, quiçá uns bons três dias, acompanhei de perto as desventuras de uma formiga-macho; chegada a época do acasalamento, e sem acesso às fêmeas, violentou uma operária, cujos órgãos atrofiados impedem a cópula, provocando-lhe a morte em meio a dores atrozes. O alarido provocado pelos meus colegas, atiçando o agressor com furiosos cacarejos, serviu-me de lição sobre a verdadeira natureza das aves.

            Recentemente ocorreu uma alteração na rotina férrea desta penitenciária, talvez um feriado religioso; o fato é que havia menos tratadores e estes apresentavam um comportamento selvagem, distante da indiferença habitual. Os chefes não estavam. O churrasco fedorento que prepararam me embrulhou o estômago, beberam de uma água com cheiro acre e se puseram a rir e a cantar. A certa altura, abriram uma gaiola e arrancaram de lá um frangote recém-chegado, que passaram a torturar por diversão.

            O coitado foi apanhado pelo pescoço e forçado a beber o líquido malcheiroso, depois soltaram a pobre criatura completamente grogue no meio da roda. Chutavam-no de lá para cá a cada vez que se aproximava de um deles. Assisti horrorizado um dos demônios, o que tinha os olhos mais injetados, pegar um cutelo e decepar a cabeça do rapaz. O corpo dele ainda cambaleou alguns passos antes de cair no chão remexendo as patas.

            As gargalhadas daqueles sujeitos não me saem mais da cabeça. Diante disto, o que posso esperar? Mas pensemos pelo lado bom, eventual/raro leitor, você poderá saborear a minha história e a minha carne macia e anabolizada até o fim: desfiada na sopa, assada ou frita, quem sabe até mesmo poderá cravar seus bem tratados dentes no meu coração na ponta de um espetinho. Não guardo ressentimentos, não se pode culpar ninguém por ser o que é; afinal, o problema da vida é o mesmo para todos: sempre haverá por último um enigma impossível de resolver.