quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Nuvem e o Sol (I)




            Nunca estive na França. O que é curioso, uma vez que visitei diversas vezes a Europa, a passeio ou a trabalho; porém, sempre me aconteceu, por este ou aquele motivo, de o roteiro não contemplar a pátria de Godard, de Zidane e do queijo gorgonzola ― muito embora Godard tenha origem suíça, Zidane seja argelino e o queijo gorgonzola, italiano. Mas isso não vem ao caso, o que vem ao caso é o caso estranho de ― não obstante o que afirmei anteriormente ― ter morado quase vinte anos no castelo de Maintenon, cidadezinha a sudoeste de Paris e a meio caminho entre Versailles e Chartres.
            A estrada que me lembro corria por baixo de um imponente aqueduto construído por Vauban durante o reinado de Luís XIV, coberto por flores e vinhas silvestres e ladeado pela floresta de Poigny, seus arcos de pedra recortando pedaços de um céu glorioso. Os engenheiros do rei-Sol projetaram este aqueduto para abastecer com as águas do rio Eure as 1.400 fontes dos jardins de Versailles, de modo que as cataratas não parassem, fosse noite ou dia. Um delírio de grandeza que ocupou trinta mil trabalhadores, entre pedreiros e soldados, e também uma obra interrompida pela Guerra da Liga de Augsburgo. A guerra, prevista para ser curta e que duraria dez anos, consumiu os pratos de ouro do rei, que se viu obrigado a vender até a prataria que brilhava à luz de 4.000 velas na Galeria dos Espelhos em Versailles.
            Nunca haveria dinheiro para construir a série de três canalizações previstas no projeto inicial, conseqüentemente, as fontes do jardim real raramente eram ligadas; dando origem a um sem número de chacotas entre a enciumada burguesia parisiense. Se em Versailles o aqueduto fracassara, em Maintenon, contudo, as águas foram suficientes para converter o fosso fedorento da lúgubre fortaleza medieval em espelho d’água que circunda os jardins do castelo reformado que abrigaria os cinco filhos bastardos do rei. Visto à distância, o Château de Maintenon literalmente flutuava sobre um sistema de canais a desaguar num magnífico lago artificial.
            Do amplo pátio, entrava-se para o castelo de estilo gótico tardio passando sob um relevo de São Miguel Arcanjo matando um dragão; subindo uma escadaria para o primeiro andar, lá estava o imenso retrato a óleo da marquesa, Madame de Maintenon. Não se imagine luxo nesta construção austera, a refletir a personalidade de sua dona, exceção feita aos aposentos reais, com retratos de quatro antecessores ― Luís XII, Francisco I, Henrique IV e Luís XII ― sobre cada uma das portas e uma cópia do retrato da coroação de Luís XIV feito por Rigaud. Vivíamos numa faina para manter o tom e a higiene adequados do lugar: uma reduzida equipagem de duas amas, uma criada, um cocheiro, um estribeiro, dois lacaios, duas cozinheiras e um médico.
            Mas divago. Talvez seja melhor e mais sincero explicar que naquela época minha vida estava bem longe de passar por uma fase solar: tinha acabado de me separar, a sociedade da empresa patinava e a minha cabeça tinha mais nós do que as tranças de Rapunzel. Meu ex-marido desfilava numa moto de ‘trocentas’ cilindradas com uma lambisgóia grudada nas costas feito carrapato; desnecessário dizer, impossível calar: metade das primaveras que me ilustram a biografia. E a cruel cereja, corolário do bololô, a peguete começava a seduzir meus filhos a golpe de passeios no Hopi Hari, além de sessões intensivas de shopping e videogame.
            Tive um colapso nervoso, fui indicada pelas melhores recomendações ao Dr. Edson, um terapeuta holístico. Comecei sessões de meditação com cristais, massoterapia e tomava bolinhas e gotinhas praticamente de hora em hora, todos os dias. Certo dia, ao retornar do enésimo período sabático em que me entediei comigo mesma, comentei com o doutor sobre os meus problemas sexuais; neste momento, ele decidiu que eu precisaria de sessões de hipnose. Ele falou apenas isso, hipnose, mas depois foi me convencendo a tentar algo mais radical: terapia de vidas passadas.
            E foi assim que descobri Jeanne D’Arc Dubois, vulgo Jeannette, dama de companhia de Madame de Maintenon.

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