sábado, 20 de agosto de 2011

Kathryn

Pronuncia-se “quétrin”, quase como em inglês, a única coisa que muda é o “h”, que em lugar do som aspirado do “th”, passa a ser letra muda. As palavras e as coisas não se entendem mesmo. Na vida real, não poderia haver duas pessoas mais diferentes no mundo, Catarina, a minha noiva, e Kathryn, uma garota com quem venho me encontrando nas viagens de trabalho.

Chamei a Catarina de noiva e já me arrependi, diria com mais acerto namorada, uma vez que é assim que nos apresentamos aos que não nos conhecem. Dez anos de namoro. Catarina pressiona cada vez mais: há coisa de uns três meses praticamente me obrigou a usar uma aliança de ouro na mão direita. O relógio biológico, costuma repetir.

Vai acostumando a usar, disse; um pré-noivado, porque o noivado mesmo ela já decidiu que vai ser no final do ano em alguma reunião familiar. Uma moça direita é o que é, gosta de rituais, das coisas certas, feitas do jeito certo e na hora certa. Quanto a mim, vou barrigando sem pressa, no vai da valsa. Deixo a vida me levar.

A maneira como conheci a Kathryn é um pouquinho difícil de explicar. Para falar a verdade toda, no momento a minha condição geral é bastante pouco precisa: aparentemente fui promovido ― ganho bem mais que antes ―, mas não faço idéia sobre o cargo que ocupo atualmente na empresa. Catarina sobe a serra com a vaguidão de uma situação profissional como esta.

Acontece que ninguém me fez o favor de ser claro acerca das reestruturações ocorridas, o pouco que sei conto para ela. Bem, não contei sobre a Kathryn. Até porque não sei definir o que me liga a uma garota tão sem eira nem beira; às vezes, nos meus devaneios, imagino que apresentei uma à outra e que fica tudo bem, como se nos unisse a mais santificadora amizade e não devêssemos satisfações a ninguém.

Nunca daria certo, e só agora me ocorre, também eu e Catarina não poderíamos ser mais diferentes um do outro. Ela, por exemplo, já teria esclarecido outra informação anterior: não se trata de viagens de trabalho, seria mais exato dizer que viajo todos os dias para ir e voltar do trabalho; de manhã cedinho pego o TAV, trem de alta velocidade, para um desses modernos “distritos de negócios” na região de Campinas.

As funções que exerço são as mesmas de sempre: examino contratos, participo de reuniões, negociações, seminários, workshops, etc. É meio estranho trabalhar num lugar onde ninguém mora, um bairrão artificial em que tudo foi construído de uma vez só e as calçadas servem para tudo, menos para andar nelas. A vida nas ruas inexiste fora dos horários de chegada, almoço e fim do expediente.

E, claro, também escasseiam nesta cidade-fantasma bares onde um cristão possa fazer uma horinha antes de voltar para casa; pelo contrário, no fim do dia, todos saem frenéticos na direção dos coletivos e automóveis, disparando para fora daqui. Talvez seja a razão por que não chego a formar um mapa mental deste mega-brega condomínio empresarial com a sobriedade típica de um emirado árabe.

O que salva a humanidade é que sempre existirão os botecos de caminhoneiro; num desses pés-pra-fora, nos arredores da estação do trem, vim a conhecer Kathryn. Foi como descobrir a dinamite. Cheguei nela com a conversa a mais manjada da história do universo: “você vem sempre aqui?”, “onde você trabalha?”; e por aí fui indo, imprudente, sem conseguir frear os clichês que borbotavam da minha boca.

Até que levei a cipoada. ― Que é isto Vicente, você tá preenchendo um cadastro, ou o quê?

― Hmm... e o que mais você sabe sobre mim? ― difícil discernir o que mais doía, se o tom em que falou, se os fúlgidos olhos escuros que cravou em mim ou o fato de saber o meu nome.

― Sei que as lágrimas que você chora são de má água, e que acorda assustado à noite, e que as suas angústias são os prazeres sujos que busca, sabe que mais?, quem está atrás de tudo, não encontra é nada...

― De qualquer maneira, admiro a sua coragem... um lugar como este...

― Sou uma mulher civilizada, não posso me dar ao luxo de acreditar na coragem. Confio bem mais na traição.

Com estas e outras Kathryn foi me quebrando as pernas, me pirando o cabeçote; além do que, não me exige nada, não pede nem fornece qualquer informação sobre o passado. Tudo que a pode interessar encontra-se estrita e radicalmente no aqui e agora. De noite, comecei a ter uma série de curiosíssimos sonhos recorrentes: estou num mundo paralelo (pesadelo, videogame?), lá, devo escalar uma torre, escapar de armadilhas, e tudo isso com um pernicioso limite de tempo.

Não tem apelo, ajunto, nem agravo; se erro na montagem dos quebra-cabeças, ou vacilo na escalada da enorme Babel, na qual se ascende subindo em caixas que se puxa e empilha, perco a vida e volto ao começo de cada estágio. Bizarro, não sabia que era possível sonhar assim, avançando através de fases, como se houvesse um problema a ser solucionado. A dificuldade varia de moderada a simplesmente cruel.

Gozado como são os pequenos incidentes que mais podem descortinar os infinitos desfiladeiros da angústia. No moderno trem veloz, viaja-se praticamente sozinho; sempre que possível, os poucos passageiros preferem se isolar nas cabines amplas e iluminadas. Não conversar com o vizinho ao lado já está incorporado como o não fumar. Mas o camarada estava na minha frente, aos prantos, soluçava balbuciando ora para mim, ora para um celular que não completava a ligação: “atende, por favor... como é que pode desaparecer assim?...”

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