sábado, 20 de dezembro de 2014

Cele... brisou (3)



Mas, como assim, eu mesmo?
Consultava as fotos, visitava a home page, relia uma vez mais, e outra, e nada de entender, continuava na roça. Era como se, em determinado ponto da história, a própria história puxasse os cordões dos sapatos e saísse voando, e ao tocar no solo novamente, voltasse ao chão corriqueiro dos efeitos com causas, mas ainda sem explicar o vôo do pavão misterioso.
Os fatos: há coisa de uns 6 meses, comprei e instalei um aplicativo de gerenciamento de perfil em mídias sociais, o CELEBRIZOU, teoricamente, seria um app para unificar a minha comunicação via notebook, celular, ou tablet, em cada uma das ações dentro da rede, na prática, botei pra dentro da existência virtual um maldito de um vírus que ameaçava destruir meu dia a dia real.
Depois de uma espera surpreendentemente curta ao telefone no serviço de atendimento internacional ao cliente, consegui alguém que falava a minha língua. Ou quase isso. O provável indiano que me respondia do outro lado da linha dava pita de ter aprendido o português de Portugal, o que lhe conferia algum preciosismo na forma e reforçava o estranhamento da expressão.
― Então, a situação está neste pé que acabei de lhe relatar, senhor...?
― Julian.
― Pois bem, Julian, gostaria de saber o que a sua empresa me recomenda fazer diante disto que lhe contei.
― Caro cliente, a CELEBRIZOU fica muito honrada por nos ter escolhido para gerir suas identidades na rede mundial, nossa principal expertise está em posicionar sua marca pessoal no mercado, mas, como consta do contrato de adesão e dos disclaimers que o senhor...
― Por favor, cut the bullshit, pode ser? Já conheço toda a babiagem de vocês, eu quero é saber como é que desenrola essa fita. Em nenhum lugar está mencionada uma possibilidade assim.
― Com efeito, é singular, mas nem chega surpreender tanto: o nosso produto é um software de inteligência artificial, ele evolui, aprende com o estilo de cada usuário e, com o tempo, ganha um certo grau de autonomia na tomada de decisões.
― Ha, um certo grau?, como piada é excelente, sensacional! Amigo, deixa eu te repetir, tem um cara sinistro me seguindo pra todo lado que eu vou.
― Entenda que nós visamos proporcionar um melhor desempenho na condução de uma persona pública coerente, construtiva e socialmente adequada. As pessoas se arreganham nas redes sociais sem o menor media training, é um perigo que o façam sem orientação, nossa empresa busca diagnosticar, corrigir e prevenir o dano à imagem que tantos se auto-infligem inadvertidamente...
― Todos brisam na celebridade ao alcance de todos, já entendi a ladainha.
― O que deveria ser vida privada, hoje é território público, a grande maioria não leva isso em conta, nos esquecemos rapidamente da “eternidade” e da permeabilidade da internet: sempre há rastos, registros, logs. Veja o seu caso, por exemplo, seu perfil é de um executivo da propaganda, realiza eventos na área de sustentabilidade, e tal, tudo isso condiz pouco com aquelas suas escapadas na Deep Web...
― Aonde está querendo chegar com essa conversa? Seja mais claro.
― Só uma demonstração da abrangência do nosso gerenciador de personalidades. O seu app CELEBRIZOU corrigiu esse probleminha, deletou o navegador Tor do computador pessoal e ajudou-o a emergir para fora do ambiente empesteado da dark net: drogas, lavagem de dinheiro, cartões e documentos hackeados, armas, pornografia da pesada, etc.
― Tá, tá, já captei que vocês são os maiorais, the foddest ones, agora conta pra mim o que você vai fazer concretamente pra me ajudar. Ninguém daí consegue desativar o programa remotamente? E mais, dá pra desinstalar essa porra desse cara da porra da minha vida?
― Não é possível, hãm, o software aprende a desativar os comandos do controle à distância.
― Fabuloso, então você está me dizendo que vende produtos que perdem o controle?
― Posso afirmar-lhe que os nossos produtos obedecem aos mais rigorosos padrões normativos e são projetados com o estado-da-arte da tecnologia informática. O seu avatar pode ter se desenvolvido demais porque o senhor já trabalha com meios de comunicação e...
― Ok. Uma última pergunta: Julian, você é um robô?
A ligação caiu na hora.


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